Wednesday, 31 July 2013

Selvagens - 161° ao 170° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow





161

Eles sabem, porra.
Três anos atrás, dois de seus homens arrumaram um serviço em um laboratório de refino de cocaína em National City.
Carlos e Felipe acharam que eram os caras, acharam que iriam se safar.
Mas não foi o que aconteceu.
Lado os levou para um armazém em Chula Vista. Fez Carlos observar enquanto ele colocava Felipe em um saco de cânhamo, amarrava e pendurava em uma viga.
Depois brincaram de piñata.
Bateram no saco com um porrete até sangue e pedaços de ossos se espalharem pelo chão como moedas e doces.
Carlos confessou.


162

Ben parece entediado.
Indiferente.
Enfiando na sua cabeça a ideia de —
Quer me assustar com histórias de terror?
Vá ao Congo, babaca.
Vá a Darfur.
Veja o que meus olhos viram, e depois
Me assuste com histórias.
Lado não tenta assustá-los com histórias. Ele diz:
— Se eu ligar isso a vocês, sua putana morre.
Ben sabe que ao menor sinal de medo em seus olhos, Lado saberá.
Então o olha nos olhos e pensa
Vai se foder.


163

Chon segue Lado após a reunião.
O homem dirige até um conjunto residencial em Dana Point Harbor, entra e fica lá cerca de uma hora.
Chon pensa em ir atrás dele.
Resolver ali, na hora.
Mas sabe que não pode.
Lado sai com uma mulher. Gata bonita, uns 30 anos, talvez menos. Lado entra em seu carro, a boceta entra no dela.
Chon anota mentalmente a placa dela, depois continua a seguir Lado.
Chegam a uma empresa de jardinagem em SJC — San Juan Capistrano.
Lado entra no escritório pelos fundos.
Então, quando não está aparando cabeças, pensa Chon,
Ele apara sebes.


164

— Melhor fazermos alguma coisa — diz Ben.
Para desviar as suspeitas um pouco.
— Tipo o quê?
— Bem — diz Ben —, eles estão nos roubando, certo?
— Pode-se dizer que sim.
Eles tiraram de nós tudo que poderiam roubar. (Perdão, Sr. Dylan.)
— Então nós precisamos nos roubar para mostrar a eles que não podem se livrar dessa.
(Perdão, Sr. Sahl.)


165

Gary é o produtor de uma estufa na região leste de Mission Viejo, perto das montanhas, um simpático bio-geek de óculos e 20 e tantos anos que descobriu ser possível ganhar muito mais dinheiro, com muito menos aborrecimento, criando maconha refinada para Ben em vez de ensinando botânica 1 a um bando de calouros que, acima de tudo, não quer aprender.
— Pronto para entrega? — Chon pergunta a Gary.
— Pronto — afirma Gary, franzindo o cenho.
Gary não está contente de vender seu belo e sofisticado trabalho, fruto de muito amor, para o CB, que ele considera um bando de bárbaros empresariais incultos incapazes de apreciar os tons nuançados dessa mistura específica.
— Tire a noite de folga — diz Chon. — A gente cuida disso.
— Mesmo? — pergunta Gary, agradecido.
— Vai embora, palerma — diz Ben. — Sai daqui.
Gary sai dali.
Uma hora depois, os rapazes da coleta do CB chegam.
Transação rápida.
Dinheiro por bagulho.
Eles esperam alguns minutos depois que os caras do CB vão embora, e então Ben diz
— Bora roubar esses caras.
E então…
— É… Isso é um assalto.
— Para com essa porra.
Mas Ben está se animando.
— No chão. Nenhuma gracinha, e ninguém se machuca. Ninguém tenta dar uma de herói, e todos voltam para casa, para suas esposas e filhos.
Chon diz:
— Chega.
Ben liga para Alex e diz que tem um problema.


166

— Você me limpa e depois você me limpa? — reclama Ben. — Meu Deus, Alex, existe ganância e ganância, mas derrubar o meu preço e depois vir aqui e roubar o pouco dinheiro que você me pagou… isso é cem por cento de desconto, o que é um pouco demais.
Eles estão sentados um diante do outro em uma mesa de piquenique do lado de fora do Papa’s Tacos em South Laguna. Se você quer um taco de peixe realmente bom, vai ao Papa’s. Se não, vai a algum outro lugar.
— Do que você está falando? — pergunta Alex.
— Cinco minutos depois que o seu pessoal pegou o material, outros caras chegaram e levaram o dinheiro — bufa Ben.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou com cara de quem tá de sacanagem?
Alex incorpora o advogado:
— Ei, depois que a transferência é feita, a responsabilidade não é nossa.
— Só que foi um trabalho interno.
O que é tecnicamente verdade.
— O que faz você pensar isso? — pergunta Alex, ficando um pouco pálido.
— Quem mais sabia?
— Seu pessoal.
Ben diz:
— Eu estou no negócio há oito anos e nunca fui roubado pelo meu pessoal.
— Qual a aparência dos sujeitos?
— Bem, não eram retardados, porque estavam usando máscaras — diz Ben.
— Que tipo de máscara?
— Madonna e Lady Gaga.
— Não é hora de brincadeira.
— Também acho — diz Ben. — Eles não falaram muito, mas o pouco que disseram me soou um pouco sul da fronteira.
Alex pensa nisso um segundo, mas não quer ceder terreno.
— Talvez você precise reforçar sua segurança.
— E talvez você precise dar uma olhada na sua — diz Ben, enrolando seu taco e se levantando. — Me mantenha informado. É melhor que isso não se repita.
Alex decide partir para o ataque:
— Vocês já têm o dinheiro do resgate?
— Estamos trabalhando nisso — manda Ben.


167

— Ele está em cima de mim — diz Alex a Lado.
Despensa de uma das lojas de taco de Machado em SJC. Alex não gosta do lugar — cheira a galinha crua, e galinha crua tem um monte de bactérias perigosas. Ele tenta não deixar seu paletó encostar no balcão.
Lado percebe seu desconforto e gosta disso.
Esse pendejo muppie precisa se lembrar de onde veio.
— E daí? — pergunta Lado.
— Ele culpou a gente.
— E?
— Ele está em cima de mim.
— Você já disse isso.
Um garoto entra em busca de uma lata de massa de tomate. Lado olha para ele como se fosse maluco, e o garoto, assustado, vai embora.
— Você mandou os sujeitos — diz Alex. — Será possível que um ou dois deles estejam fazendo os próprios negócios?
— Vou verificar.
— Porque isso está causando um probl…
— Eu disse que vou verificar.
Lado está de mau humor; estava assim quando acordou de manhã, está agora, e provavelmente vai estar quando for para a cama. Delores começou a encher o saco mal ele tinha acordado — as fugeda calhas precisavam de limpeza, Junior tirou 3,5 em álgebra… Ela abria a boca apenas para se ouvir falando.
Ele quis gritar com ela — eu tenho problemas de verdade. Outro tombe…
Depois três cabróns não apareceram para trabalhar de manhã e ele teve que correr até o shopping e contratar três ilegais no estacionamento. E agora essa porra? Os gueros resmungando porque foram roubados? Bem-vindos ao clube.
— Vou verificar — repete ele.
Lado sai da despensa, pega um burrito e um suco para viagem e volta ao carro. Já são 12h30, e Gloria só tem uma hora de almoço. É cabeleireira em um salão de Dana Point Harbor, mas por sorte sua casa é praticamente em frente.
Ele tem uma chave e ela está esperando por ele na cama quando Lado chega.
Vestindo apenas o sutiã e a calcinha marrom-escura de que ele gosta, o conjunto que comprou para ela que destaca os peitos firmes e a bunda cheia.
— Está atrasado, querido — diz ela.
— Vira.
Ela se vira, ficando de quatro.
Lado tira a roupa, se ajoelha na cama atrás dela e baixa a calcinha até os tornozelos. Ele se orgulha de ficar duro sem ela precisar tocá-lo ou ele próprio se tocar — isso é bom para um homem da sua idade.
Ele passa os dedos pelas costas dela e a sente estremecer. Sua pele é como manteiga.
Então ele a abre. Soca até ela gemer de prazer, sente a pressão nos bagos, tira de dentro e a vira.
Ela o coloca na boca e termina com a mão.
Lado não usa camisinha e não quer mais filhos.
Quando Gloria sai do banheiro, deita ao lado dele, passa a mão pelos cabelos dele e diz:
— Está ficando desgrenhado. Você devia vir cortar comigo.
— Eu vou.
Ela se levanta e começa a se vestir.
— Tenho uma cliente às 2 horas.
— Esquece ela.
— “Esquece” — zomba ela. — Tenho que trabalhar.
— Eu pago.
— É freguesa antiga.
A blusa preta fica justa sobre seus peitos. Ele aposta que ela recebe muitas gorjetas dos homens que vão ao salão. Isso deveria deixá-lo com ciúmes, mas em vez disso o excita; e ela sabe. Às vezes ela conta a Lado que os vê de pau duro e roça uma das coxas neles.
— Aposto que as esposas desses caras fazem a festa de noite — diz ele.
— Com certeza — diz ela.
Ela lhe dá um beijo de despedida e sai. Ele veste as calças, vai até a cozinha e pega uma cerveja da geladeira. Senta e assiste a um programa de entrevistas idiota na TV.
É bom relaxar alguns minutos.
Então seu celular toca, e é Delores.


168

Gloria entra no salão e veste o avental preto.
Teri, agarrando uma xícara de café, sorri maliciosamente para ela.
— Por que eu faço isso se só faz com que eu me sinta suja e aviltada? — pergunta Gloria.
— Você acabou de responder à própria pergunta — diz Teri.


169

Lado se senta na arquibancada atrás da base e vê Francisco se preparar. Os pés estão juntos demais, e Lado faz uma anotação mental para dizer isso a ele quando chegar em casa.
— Você tem feito a coleta com o pessoal novo — diz ele a Hector.
Hector anui.
Francisco faz seu arremesso, mandando uma bela bola com efeito, baixa e interna, para um strike.
— Tem feito mais alguma coisa, Hector?
Hector parece confuso.
— Como assim?
Francisco se prepara, e Lado sabe que dessa vez ele vai mandar a bola rápida. À esquerda do campo, Junior parece sonolento. Sabe que a bola não irá em sua direção.
Ele está certo, pensa Lado, mas ainda assim tem que parecer mais ligado.
— Você não está fazendo jogo duplo, está?
— Não!
É a bola rápida, direto no meio, mas o garoto gira atrasado. Hector é um bom homem, está com eles há, o quê, seis anos? Nunca nenhum problema, nenhuma confusão.
Lado diz:
— Não quero que ninguém pense que pode tirar vantagem desses gueros só porque são novos e um pouco frouxos. As pessoas precisam saber que eles estão sob a minha proteção.
— Entendido, Lado.
Pode apostar seu traseiro mexicano marrom que entende. Se você está sob o guarda-chuva de Lado, você não se molha.
— Ótimo — diz Lado. — A próxima coleta tem que ser tranquila.
— Vai ser.
Francisco desperdiça o lançamento seguinte, exatamente como Lado sabia que ele faria. Francisco é um garoto inteligente, com dois na contagem não faz sentido cansar o braço; joga uma bola ruim para ver se o garoto rebate. Esperto.
— Como está seu irmão? — pergunta Lado. — O Antonio. Ainda vendendo carros?
Ele pode ouvir o coração de Hector parar.
— Sim, ele está bem, Lado. Vai gostar de saber que perguntou por ele.
— E a família dele? Duas filhas, não é?
— É. Todos bem, dio gracio.
Francisco faz a pose. A postura ainda é muito apertada, mas o garoto tem um braço comprido de chicote, então se vira. Bola com efeito que cai como se escorregasse de uma mesa, e o rebatedor gira e perde.
Mais um que já era.
E agora Hector sabe que se estiver fazendo jogo com os carregamentos de yerba estará morto, mas não antes de seu irmão, sua cunhada e suas sobrinhas que moram em Tijuana.
— Delores! Olá!
Lado se vira para ver Delores abrindo caminho pelo banco, dizendo olá às outras mães. Ela se senta junto a ele.
— Então eu cheguei na hora e você está atrasada — diz Lado.
— Estava esperando os caras do telhado — diz ela. — Claro que chegaram tarde.
— Eu disse que cuidaria disso.
— É, mas quando? — pergunta ela. — O inverno vai ser úmido. O Junior já rebateu?
— Provavelmente no próximo inning.
Francisco lança uma bola baixa, um lixo, mas o rebatedor raspa e manda uma curta. Lado se levanta e aplaude enquanto Francisco trota para o banco, a luva dobrada descontraidamente sob o braço.
— Vamos levar os garotos ao CPK depois do jogo — diz Lado.
— Por mim, tudo bem — responde Delores.
Ela pode sentir nele o cheiro da puta cabeleireira.
O mínimo que ele poderia fazer era tomar um banho.


170

Ela pode sentir o cheiro dele.
Seu suor, seu hálito.
Quando ele vai em direção à ela.
O. desvia a cabeça, mas
Ele fica bem ali, de pé, respira em seu rosto, olha
Para seu rosto com aqueles
Olhos negros e frios
Ela
Chora, ela
Soluça de pânico, ela
Não consegue desligar.
É, mas você precisa, garota, diz O. a si mesma.
Ela se obriga a respirar fundo, hora de deixar de ser pueril com isso. Hora de ser durona, mostrar um pouco de ovários. Ela sai da cama, vai até a porta e a esmurra.
— Ei! — grita. — Eu quero acesso à internet!

Fofo!!


Monday, 29 July 2013

Selvagens - 151° ao 160° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow



151

— Encontramos o Lincoln — diz Hector a Lado.
Lado dá de ombros.
— Onde?
— Estacionamento da estação ferroviária de San Juan — responde Hector. — Está registrado em nome de um tal de Floyd Hendrikson. Ele tem 83 anos e deu queixa de roubo esta manhã.
Eles vão falar com o motorista e o pendejo que estava com a escopeta.
Lado e Hector os levam a uma grande fazenda de produção de tâmaras perto de Indio e os colocam em um galpão onde guardam tratores e outras coisas. Os dois se sentam no chão de terra apoiados na parede de zinco corrugado e desenvolvem diarreia verbal. Ficam falando sem parar sobre como eram dois caras, uma escopeta e duas pistolas, profissionais…
Lado já sabe que eram profissionais — pois sabiam quando, onde e o quê, e sabiam que deveriam procurar o GPS.
— Dois? Certeza? — pergunta Lado.
Eles têm certeza.
Dois caras altos.
Lado acha isso interessante.
Usando máscaras.
— Que tipo de máscaras?
Apresentadores de TV yanquis.
Jay Leno e…
— Letterman — diz o motorista.
O outro anotou a marca do carro e a placa.
— Que incrível. Nenhum de vocês dois se machucou, nem um pouco — diz Lado.
Muita sorte, eles concordam.
Bem, isso não vai durar.


152

Lado tem plena certeza de que eles contaram a verdade e não tiveram nada a ver com aquilo.
Nada além de serem covardes idiotas e preguiçosos e deixarem acontecer.
Aqueles cabróns têm famílias no México, procedimento padrão para qualquer um que trabalhe para o CB deste lado da fronteira: você precisa ter família onde o CB possa pegá-la.
Fodam-se referências de trabalho; se quer garantir bom desempenho e lealdade, você mantém pais, irmãos e irmãs, até mesmo primos no seu bolso. Homens que não pensariam duas vezes em arriscar as próprias vidas nunca pensariam em arriscar as de suas famílias.
Ele joga o chicote no chão.
Dois caras altos…
Não, não pode ser. Como os dois gueros iriam saber a localização do depósito, o caminho que os motoristas usam?
Não poderiam.
Não, um tombe como este só pode ser trabalho de gente de dentro. Talvez não esses dois pendejos, mas alguém de dentro.
— Cortem os dois — ordena ele.


153

Café de grife na Ritz-Carlton Drive.
E a PCH, Pacific Coast Highway, lado do litoral.
Chon se refere ao lugar como Yummy Mummy Heaven, ou Paraíso das Mamães Gostosas.
Ele costumava se instalar em uma das mesas externas, tomar cappuccino e assistir ao desfile de jovens mães ricas correndo e empurrando seus carrinhos de bebê de corrida de três rodas. Corpos firmes em camisetas (ou suéteres de grife com capuz, em climas mais frios) e calças de moletom.
— Esse é o turno da manhã — explicou ele a Ben.
O turno seguinte inclui a creche exclusiva que fica mais à frente na rua. As MG (Mamães Gostosas) ligeiramente mais velhas deixam suas crianças mimadas e aparecem para um café com leite, e talvez sexo pós-café com leite com Chon.
— Entediadas e ressentidas — observou Chon a Ben. — Perfeitas na cama.
— Adúltero.
— Eu não sou casado.
— O que foi feito da moral? — Ben suspirou.
— O mesmo que foi feito dos CDs.
Substituída por uma tecnologia mais nova, mais rápida e mais fácil.
Ben perguntou:
— O que O. pensaria dessas escapadas repulsivas?
— Você tá de sacanagem, né? — reagiu Chon. — Ela caça talentos para mim.
— Cala a boca.
Mas é sério. O., quando consegue acordar cedo o suficiente, passa muitas horas alegres avaliando as chances de Chon. Aquela é gostosa, aquela é safada, aquela é feliz em casa, pode esquecer, olha aquela bunda, eu pegaria aquela ali…
— Ela alguma vez…
— Que nada.
Esta manhã eles não estão pensando nas tendências lésbicas mal identificáveis de O. ou nas MGs. Mas estão pensando em O. quando Alex e Jaime entram…
— Siameses chupa-rolas.
— Calma.
… param no balcão e pedem café para viagem.
Ben e Chon os seguem até o estacionamento e entram no banco de trás da Mercedes de Alex.
— O que foi? — pergunta Ben.
Alex se vira para olhar para Ben.
— Um dos nossos carros foi roubado ontem à noite.
Ben está gelado. Filho de dois analistas que o colocavam constantemente à prova, ele sabe como encarar um interrogatório.
— E?
Alex é um amador nisso.
Revela tudo em seu rosto de advogado.
— Vocês saberiam de alguma coisa a respeito?
Ben se encrespa com o tempo verbal.
— Ah sim, eu saberia alguma coisa a respeito se tivesse algo a ver com isso.
Considerando-se que não tenho, não sei.
Divertindo-se com a linguagem.
Alex tenta fazer Chon baixar os olhos.
Aham, vai funcionar.
Tente fazer um rottweiler piscar.
— Certo — diz Alex finalmente.
Chon é Chon, mas Ben é Ben.
— Tente não me chamar por causa de besteiras no futuro, certo? Como está a O.?
— Quem?
— Quem? — Chon parece prestes a estapear o cara. Há uma possibilidade real por um segundo, mas Ben o interrompe:
— A Ophelia. Nós a chamamos de O. A jovem que vocês sequestraram. Como ela está? Queremos falar com ela.
— Talvez isso possa ser arranjado — diz Alex.
Ben percebe a forma passiva.
Responsabilidade sendo evitada ou
Autoridade não possuída.
Interessante.
— Arranje — diz Ben, abrindo a porta do carro. — Se não há mais nada a ser dito, Chon tem alguns casamentos pra destruir, e eu tenho produto a produzir.
Eles ficam parados no estacionamento enquanto a Mercedes parte.
— Você é bom — diz Chon. — Acha que eles realmente suspeitam da gente?
— Se suspeitassem, teriam trazido o Cara da Motosserra.
Eles voltam à cafeteria.
— Aliás — diz Chon —, acho que eu faço os casamentos melhorarem.
— Sério?
— Com certeza.


154

Existe um mito segundo o qual roubar gente do tráfico é o crime perfeito, porque as vítimas não podem dar queixa à polícia.
Aham.
Elas podem não dar queixa policial, mas isso não significa que não o relatem à polícia.
Só tem que ser a polícia certa.
Alex por acaso conhece alguns sujeitos dessa polícia.
Por exemplo: o subxerife Brian Berlinger, do departamento do xerife de Orange County, tem uma bela casa em Big Bear, onde gosta de passar fins de semana e férias.
Motivo pelo qual ele está neste exato instante ao computador pesquisando quais lojas na região de Orange County têm em estoque máscaras de Leno e Letterman.


155

Para o próximo roubo, Ben se decide por astros do cinema.
— Acho que vou de gay — diz ele a Chon.
— Não me surpreende, mas especificamente…
— Estou assustadoramente empolgado com essa coisa de tema — diz Ben enquanto examina suas escolhas em um catálogo na internet. — Se esse lance de drogas e roubos não der certo, talvez eu possa entrar nessa área de produção de eventos.
— Ou pode chupar paus.
— Sempre há essa possibilidade — admite Ben, estudando as ofertas. — Quer ser Brad Pitt ou George Clooney?
— Isso está além de gay. Você faz o gay parecer hétero.
— Escolha.
— Clooney.
Ben clica em “Comprar”.
Chon está em seu próprio laptop.
Google Earth.
Vista aérea da próxima cena de crime.


156

Dessa vez eles estarão esperando.
Estarão alertas.
E sem brincadeira.
Lado mandou dizer que se alguém vir algo do lado da estrada não pare, não reduza, pise no acelerador, ese.
Continue dirigindo, não importa o que aconteça.


157

Ben e Chon terminam de estender a chapa de pregos na estrada de terra e agora jogam uma camada de cascalho por cima.
Como todo mundo, eles assistem a Cops. (“Bad boys, bad boys, whachoo gonna do…”)
Depois retornam ao carro que pegaram para esse trabalho, escondido em um campo de abacateiros perto de Fallbrook.
— Guacamole? — pergunta Ben.
É, tá, sem graça.
O nervosismo pré-jogo está começando. Os maxilares de Chon parecem ter sido apertados com uma chave Allen, e o joelho de Ben sacode para cima e para baixo como uma britadeira fissurada.
É, mas ele relaxa fazendo isso.
Ben ouve pneus de carro na estrada de terra.
— Hora do jogo — diz Chon.
Eles ouvem os pneus estourando, Chon coloca o carro do serviço na estrada, e os dois estão em cima deles. Mesmo esquema (ensaio, ensaio, ensaio) — Chon no motorista, Ben no carona.
E funciona assim.


158

820 mil paus é pagamento de merda para Clooney e Pitt.
Um trocado para os garotos do Treze homens, mas nada mau para um serviço em meio a abacateiros.


159

— Brad Pitt e quem? — pergunta Lado.
— George Clooney — diz o motorista.
— Onze homens e um segredo — acrescenta o carona.
— E Outro segredo.
— Cala a porra da boca.
Ele fala ao telefone com Alex.
Como estamos com as máscaras?


160

Eles reduziram o número a cinco lojas, e Berlinger está verificando as cinco.
É a resposta à pergunta.
Lado dirige até o estacionamento de Aliso Beach.
— O quê? — exclama Ben. Mas eu não estou…
… produzindo meu bagulho?, não estou…
… entregando o produto aos meus varejistas?, não estou…
… falando com meus clientes?, não estou…
sendo um bom menino?
Lado olha dentro dos olhos de Ben.
— Onde você esteve na noite passada?
Ben não pisca.
Lado também está olhando, ese. Seus olhos negros já encararam muitos homens, viram as mentiras em seus olhos, na rua, nas salas, os viram pendurados em ganchos de carne. Difícil encarar esses olhos negros e mentir.
Mas Ben mente.
— Em casa. Por quê?
— Um dos nossos carros foi apanhado noite passada.
Ben resiste. Mantém os olhos fixos nos de Lado.
— Não temos nada a ver com isso.
— Não?
— Não — diz Ben. — Talvez você devesse checar seu próprio pessoal.
Lado bufa.
O que significa…
Meu pessoal tem noção do perigo.

Maravilhoso!!!


Feita por mim...

Saturday, 27 July 2013

Quem sente falta do Tim Riggins?


Eu fico morta de ciúmes quando vejo essas cenas...


Selvagens - 141° ao 150° Capítulo

Selvagens (Savages)

Don Winslow





141

O problema com a questão da informação não é o quê, é qual. É informação demais, e não insuficiente. Você de alguma forma tem que descobrir o que é significativo. Então agora que eles têm um monte de merda sobre o Cartel de Baja, estocada em cinco pen drives, precisam vasculhar tudo isso para encontrar aquilo de que precisam.
Metanfetamina ajuda.
É, essa coisa de virar a noite pesquisando costumava ser um barato de café e cigarro, os dois intrépidos repórteres investigativos em busca do Garganta Profunda, a dupla de policiais procurando uma pista antes que o tenente os afastasse por estar sendo pressionado pelo gabinete do prefeito.
Foda-se isso.
Eles não fumam (cigarros), e Ben já tem caganeira mesmo sem se entupir de café italiano, e de qualquer maneira ele só compraria aquela bosta de comércio justo que tem gosto de terra, então eles pegam o caminho farmacêutico.
Palitinhos químicos para segurar os olhos.
Pop. Pop.
Sentar na frente de um computador tendo tomado metanfetamina é como estacionar o carro enquanto enfia o pé no acelerador.
Rodando a 150 por hora.
Ela não aguenta muito mais, capitão.
É, bem, ela poderia, Jim, se tivesse Ben para dar a ela uma mistura indica-sativa que deixa seus nervos em repouso ao mesmo tempo que acelera seu cérebro.
O amanhecer os encontra…
Corrigindo…
O amanhecer não “encontra” porra nenhuma; o amanhecer não está procurando. (A única qualidade redentora do universo é sua indiferença, acredita Chon.)
Quando o sol nasce, eles ainda estão ali, vasculhando a montanha de material.
Ben, claro, quer contexto.
— Não há conteúdo sem contexto — diz. Ele aprendeu isso em Berkeley.
Chon espera que Ben não queira “desconstruir” o Cartel de Baja. Chon quer desconstruir o cartel, mas de uma forma bem diferente, nada Derrida. Contexto, conteúdo — ele não queria seguir esse caminho, mas, já que estão aí, ele só quer entrar e explodir pessoas.
Ele está um pouco perturbado pela falta de sono. Mas Chon sabe por experiência própria que é um Grande Erro tentar dormir depois de uma viagem de metanfetamina.
Você não consegue laçar aquele pônei, tem que deixá-lo correr até o bicho cair sozinho. (Aviso: tentar dormir depois de tomar metanfetamina pode provocar um surto psicótico. Consulte seu médico imediatamente. Tipo, alerta: se uma ereção persistir por mais de quatro horas, consulte um médico imediatamente e torça para ser uma médica cheia de tesão.)
Ben não está desconstruindo o cartel, está desconstruindo a informação.
Aparentemente Dennis conseguiu a maior parte de suas informações de uma única fonte — IC 1459, que não é identificada em nenhum momento nos arquivos.
Então Dennis não está dando o nome da fonte para ninguém, nem mesmo para seu próprio pessoal. Não é incomum — um ativo é apenas isso, um ativo, e os burocratas não abrem mão de suas moedas.
Vamos conseguir no momento que precisarmos, pensa Ben.
— Certo, mas qual é a porra do seu contexto? — pergunta Chon.


142

A família Lauter consistia de quatro irmãos e três irmãs.
Anotaí, Chekhov.
Elena é a irmã do meio.
Ele acha uma foto de Elena.
Definitivamente uma coroa comível.
Cabelos cor de ébano, malares marcados, olhos castanho-escuros, corpinho firme.
Rainha Elena.
Ela viu os irmãos caírem um a um. O último homem da família é seu filho, Hernan, mas não é ele, ele não é o cara, não é capaz. É engenheiro, inteligente, poderia aprender os aspectos empresariais, mas na verdade não leva a sério engenharia nem nada, exceto, talvez, bocetas.
Mamãe sabia disso, sabia que ele não podia comandar os negócios da família; parte dela teria gostado de simplesmente sair de cena e deixar El Azul e Sinaloa ficarem com a merda toda. Mas também sabia que, sendo o último pau de pé, seus rivais não poderiam deixar seu filho vivo.
Ela teve que assumir, no mínimo para mantê-lo vivo.
Não queria encontrá-lo em um barril de ácido.
Ela é muito capaz. Tem cérebro, experiência, nome, DNA, coragem, pessoal, sangue-frio, colhões e/ou ovários.
E ela descobre que gosta de comandar as coisas, gosta do poder.
Elena é quente — sexy, bonita, inteligente, eficiente. Usa tudo isso para manter seguidores leais ao seu redor. Também é impiedosa: é me ame ou cortem-lhe a cabeça.
Ela é a Rainha Vermelha.
El Azul, um ex-tenente, não aceita. Simplesmente não se permite receber ordens de uma mulher, além de achar que ela não dá conta. Provavelmente também não a acha capaz de dirigir um carro ou cuidar de um talão de cheques, então rompe com aquilo tudo e monta seu próprio grupo. Volta para os caipiras de Sinaloa e diz:
— Dá para acreditar, os Lauter são comandados por uma mulher. E quando ela ficar de chico?
— Eu digo o que acontece, porra — diz Ben, entusiasmado —, os caras têm as porras das cabeças cortadas, o sangue corre, é isso aí.
Mas Elena é esperta — ela cresceu no tráfico de drogas, não há nada que não tenha visto antes, então faz uma análise fria e vê que perderia uma guerra contra El Azul e Sinaloa.
Uma análise recente escrita por Dennis sugere que a seção Elena/Hernan do CB está aliada a um grupo chamado Los Zetas.
— Os caras do vídeo — diz Chon.
Los Zetas recentemente atravessaram a fronteira para a Califórnia e formaram um subgrupo chamado Los Treintes. A DEA parece que não sabe muito sobre eles, mas pelo visto são chefiados por um ex-Zeta chamado Miguel Arroyo Salazar, mais conhecido como “El Helado” — “Gelado”.
Ben mostra a Chon a velha foto de arquivo mostrando um policial do estado de
Baja. Eles colocam o vídeo da refém e olham para o homem com a motosserra de pé junto a O.
— O mesmo cara? — pergunta Ben.
— Parece.
— O mesmo que eu conheci hoje — diz Ben. — Nosso novo chefe: Miguel Arroyo Salazar.
— Esse cretino está morto — diz Chon. Mais cedo ou mais tarde, vai estar.
Então, continua Ben, Elena recruta os Zetas — paga bem a eles, dá uma área para explorarem e diz: “Cresçam e prosperem.” Sigam para o norte, bravos, e tomem a Califórnia (de volta).
— Por quê? — pergunta Ben, de forma retórica.
— Porque é onde o dinheiro está — responde Chon de forma retórica.
Ou seria algo mais?, pensa Ben.
Mas ele deixa isso pra lá.
Uma coisa de cada vez, e a primeira é resgatar O. viva.
Comprá-la de volta.
— Temos o bastante aqui para seguir em frente — diz Chon.
Foda-se o contexto.
Vamos ao conteúdo.


143

Precisamos ser cuidadosos, pensa Ben.
Precisamos ser mais que cuidadosos. Se o CB tiver qualquer suspeita de que estamos usando o dinheiro deles para pagar o resgate, eles matam O.
Portanto…


144

Eles acham o endereço em um dos arquivos de Dennis.
Lá nos novos projetos residenciais do leste que abraçam as montanhas.
Terra dos caçadores.
Não o novo tipo de caçador, o velho tipo de caçador, os leões da montanha.
Dennis o vigiou durante meses. Alugado por um tal de Ron Cabral, reconhecidamente um aliado etc.
Agora Ben e Chon estão lá.
Veem os carros chegar e sair, tarde da noite ou de manhã cedo, normalmente antes de o sol nascer. Conseguem ter uma noção de quando os negócios são feitos, quando as entregas entram, saem, quantos homens.
Um depósito.
Onde o dinheiro é guardado até ser embalado e enviado para o sul.
Ou não, como pode vir a ser.


145

Chon estaciona o Mustang a 3 quilômetros e caminha pelo chaparral denso das encostas.
Ele se sente quase bem de estar novamente se exercitando.
Fica de cócoras, pega o visor noturno e vasculha o terreno até encontrar o que está procurando: uma curva acentuada na estrada, afastada das casas. Tira um instantâneo mental e o arquiva.
I-Rock-and-Roll, Istãolândia, SoCal.
Uma emboscada é uma emboscada.
É uma emboscada.


146

Eles repassam o plano um zilhão de vezes.
Na opinião de Ben.
Não o bastante, na de Chon.
— Isso não é uma brincadeira, porra — diz Chon.
— Eu não disse que era — responde Ben. — Estou dizendo que já entendi. Está na minha cabeça.
É, mas Chon sabe que vai sair da cabeça dele no instante em que a ação começar e a adrenalina correr. Então será apenas memória muscular, que só se consegue por repetição, repetição, repetição.
Então eles repassam o plano mais uma vez.


147

O começa a fazer programas de entrevistas.
O-prah, claro.

OPRAH
uma história de coragem… inspiradora… de dignidade. Por favor, deem as boas-vindas a O.

A plateia aplaude. Alguns se levantam. O., recatada em um vestido cinza, entra, agradece os aplausos timidamente e se senta.

OPRAH
Que experiência verdadeiramente impressionante. O que você aprendeu? O que tirou disso?

O.
Bem, Oprah, sabe, quando você passa tanto tempo sozinha, não tem escolha a não ser confrontar a si mesma. Acho que você ganha em autoconhecimento. Você realmente aprende sobre si mesma.

Oprah olha para as mulheres na plateia e sorri. “Essa garota não é impressionante?” Ela se volta novamente para O.

OPRAH
(suavemente)
O que você aprendeu?

O.
Aprendi como sou forte. A força de uma mulher…
uma força interior que eu não conhecia plenamente…

Aplausos.

OPRAH
A seguir, um exemplo realmente impressionante de coragem sob pressão — a mãe de O., Rupa.

O. agora está na Ellen.

ELLEN
Recebam O., da MTV!
O., com uma camiseta sem mangas cheia de estilo que mostra suas tatuagens, dá alguns passos de dança e então se joga na poltrona dos convidados.

ELLEN
Você passou por um momento bem intenso recentemente, não é?

O.
Ah, foi. Mas antes: você pegou a Portia de Rossi? Eu daria camisetas em troca disso.

A plateia explode.
Ela dança com ELLEN, depois

No Dr. Phil.

DR. PHIL
… a melhor forma de prever o comportamento futuro é vendo o comportamento passado, e eu acredito bastante que você ensina às pessoas como tratar você. Você tem que consentir em ser refém, e se não faz sua parte nisso, não tem poder de resolver a situação. Eu tenho trabalhado com casos de sequestro e reféns há 35 anos, não cheguei agora nessa área.
Para cada rato que a gente vê, há cinquenta que a gente não vê.

O.
Você é babaca pra caralho.

DR. PHIL
Estou preparado para oferecer a você ajuda de primeira, caso aceite. Mas não estou brincando, iremos fundo, e chegaremos até a base disso, sou apenas um velho garoto do interior…

O.
E um babaca.
Ah, menina, ela diz a si mesma — você tem que dar um jeito nessa sua cabeça.


148

Ben deixa Chon no Seizure World (Mundo da Doença)…
… uma comunidade de aposentados que se chama na verdade Leisure World (Mundo do Lazer), então você pode imaginar…
… depois de meia-noite, quando os velhos estão dormindo, mas antes de 4 da manhã, quando eles estão acordados de novo…
… e Chon circula até encontrar um Lincoln de que gosta. Ele precisa de 18 segundos para abrir a porta, mais trinta para fazer ligação direta (“fruto de uma juventude desperdiçada”), e sai com o carro. Esconde-o no estacionamento de um shopping em SJC, onde Ben o apanha.
— Sabe o que dá o cruzamento de um mexicano com um chinês? — pergunta Chon.
— O quê?
— Um ladrão de carros que não sabe dirigir.


149

— Você está bem? — pergunta Chon.
— Estou alto — responde Ben.
— Não fique alto demais — diz Chon. — Dá uma fumada, esfria.
— Não tem problema?
— Não.
Chon não faz a mínima ideia se não tem problema. Ele já saiu em missões noturnas antes, mas nenhuma como essa. Deve ser basicamente a mesma coisa. Você quer estar ligado, mas não ligado demais.
Ben apenas parece nervoso, tenso.
Mas determinado, daquele jeito sério de Ben.
Eles fumam uma combinação indica-sativa selecionada que vai dar uma acalmada, mas ainda assim vai manter os dois alertas.
Só para eliminar a tensão.
Dirigem até o Lincoln roubado e partem.
Virando leste na Highway 74, conhecida como Ortega Highway, cruzando (Chon gosta dessa palavra) as montanhas Santa Ana de Mission Viejo até Lake Snore…
Etimologia:
Lake Elsinore…
é uma cidadezinha sonolenta, daí…
Lake Snore, ou Lago do Ronco.
Ortega é o mais rural possível em Orange County atualmente, e um bom lugar para plantar maconha (relevante) e ter laboratórios de metanfetamina (irrelevante, pelo menos no momento). Eles viram ao norte, pegando uma das muitas estradas estreitas que nascem na rodovia e seguem por entre florestas de carvalho branco como costelas quebradas.
Eles encostam o carro em um… acostamento… de terra em um cruzamento no qual há uma placa de PARE.
Chon salta, amarra um trapo vermelho na maçaneta da porta do carro, abre o capô e solta os cabos da bateria. Volta para dentro e diz a Ben para se deitar no banco e colocar a máscara.
Ben foi à Party City em Costa Mesa e escolheu como tema programas de entrevistas.
Então lá estão eles — Leno, Letterman —, esperando seus monólogos de abertura.
Agora sua mão fecha-se em torno da coronha da pistola que ele tem no colo.
— Você só usa isso se precisar — diz Chon.
— Não brinca.
— Não é diferente de um jogo de vôlei — diz Chon. — Concentração e trabalho em
equipe.
Alguns minutos depois eles ouvem um carro vindo pela estrada.
— Pronto? — pergunta Chon.
A garganta de Ben trava.
Chon não sente nada.
A van reduz no sinal de PARE. O guarda no banco do carona vê o Lincoln quebrado, mas não pensa em nada até o carro de repente se colocar na frente da van, bloqueando a estrada.
Chon sai do carro em um instante.
Aponta a escopeta para a janela do motorista.
O motorista começa a engrenar a ré, mas Chon aponta a arma para sua cabeça, e o motorista muda de ideia. O carona tenta pegar a pistola no banco, mas Ben está junto à janela com a .22 na direção dele.
— Larga a arma — Ben diz o que ele ouviu em uns mil programas de TV, de modo que quase ri ao dizer isso. Mas o cara larga a arma no piso do carro.
Chon abre a porta, pega o motorista, arranca-o do assento e o joga no chão enquanto Ben manda o carona sair por meio de gestos. O carona sai, olha para Ben e diz em espanhol:
— Vocês não sabem com quem estão se metendo. Somos La Treinte.
Ben aponta a arma para o chão, tipo, deita aí.
O cara boceja de forma estudada para mostrar que não está com medo, depois se abaixa, tentando manter a terra vermelha longe de sua camisa branca.
Chon mantém o motorista na mira da escopeta enquanto Ben entra na van e logo acha o dinheiro. Também acha o rastreador por GPS com o dinheiro e o joga no chão.
Diz:
— Vamanos.
Chon dispara duas vezes, nos pneus dianteiros e traseiros da van.
Eles entram no Lincoln e partem.


150

— Foi muito maneiro!
Ben está ligadão.
Adrenalina alta. Endorfinas ricocheteando nas paredes das células como um esquizofrênico jogando pimbolim consigo mesmo. Diferente de tudo que ele já havia experimentado.
— Conte — diz Chon.
765.500 dólares.
Um começo.

Novas fotos do Tay Tay no set de TNH (28/06)




Friday, 26 July 2013

The Grand Seduction News




The Grand Seduction  foi aceito no TIFF 13 e será o filme de abertura do Atlantic Film Festival, em Halifax, no Canadá, dia 12 de setembro. O TIFF acontecerá de 5-15 de setembro e The Grand Seduction terá sua grande estreia em um evento de gala mas ainda não tem data certa.

Fonte 1
Fonte 2

O Gostosão!!!





Quanta beleza!!!



Petição Alan Horn, Chairman, Walt Disney/Pixar Studios

This petition will be delivered to:
Alan Horn, Chairman, Walt Disney/Pixar Studios


Alan Horn, Chairman, Walt Disney/Pixar 

Studios: Bring Back John Carter - Take Us 

Back To Barsoom!


Let's take John Carter Back to Barsoom!
 Once in a very long time, a film comes along that captures the imagination and transports viewers to a spectacular, previously unexplored world where they encounter cultures and characters that ignite the spirit and stir the soul.  Andrew Stanton's "John Carter", based on the visionary 1912 Novel "A Princess of Mars"  by Edgar Rice Burroughs,  is such a film.  
  Audiences worldwide have journeyed to Barsoom and are deeply moved and inspired by the world and the characters they have encountered there. Avid fans have seen the film  multiple times in theaters; others  are creating artwork inspired by the movie,  and a global community of engaged fans are making their voices heard that this first film should not be the last.  John Carter deserves a sequel!
 If you too have been touched by this movie and the world it creates; if you feel that you have not had enough of John Carter, Dejah Thoris, Woola, Tars Tarkas, Kantos Kan and the world they inhabit, will you join us?  Please add your name to our petition so that the producers of this rare and deserving film will know that in this instance, the film-makers have created something special, and deeply appreciative  fans are prepared to support future films in the series.  Let's give Disney Studios the encouragement they need to believe in this film, and the film-makers, and the fans who will nurture John Carter of Mars into a series that will inspire and entertain for decades to come.
 Let's take John Carter Back to Barsoom!
FaceBook Group:  Take Me Back To Barsoom! I Want John Carter To Have A Sequel! http://www.facebook.com/groups/288143804588289/
Twitter @ JohnCarter, BackToBarsoom, TheJohnCarterFiles

Nós já temos 9.521 assinaturas mas precisamos de mais 479, por favor participe e convide seus amigos, divulgue nas redes sociais...     

Aqui está o link para participar: https://www.change.org/petitions/alan-horn-chairman-walt-disney-pixar-studios-bring-back-john-carter-take-us-back-to-barsoom#
To:
Alan Horn, Chairman, Walt Disney/Pixar Studios 
I just signed the following petition addressed to: Alan Horn, Chairman, Walt Disney/Pixar Studios

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Bring Back John Carter - Take Us Back To Barsoom!

Greetings Mr. Horn,


I have signed the attached petition to express my great desire to see the sequel to your wonderful film, John Carter. This petition is only one facet of a campaign started by an increasing number of fans that adore the film and are doing everything in our power to see it succeed! We have taken it upon ourselves to turn around the negative public image that has undeservedly been cast on John Carter.


On March 20, ten days into the theatrical run of John Carter, Walt Disney Studios issued a statement that Disney expected an operating loss of approximately $200 million during their second fiscal quarter ending March 31. While this initially caused headlines from some critics to announce, “Mega-bomb” and ”Biggest flop in cinema history”, developments have now changed. As more and more people have gone to see John Carter, the love for this excellent film has grown. There are now a greater number of critics praising this film than there are who hate it and when the DVD/BluRay versions are released there can be no doubt that John Carter will gain a huge amount of new fans who will desire a sequel as much as we do.


Thousands and thousands of fans from all over the world are expressing their appreciation for this brilliant film. 

John Carter is everything it is suppose to be! A heartwarming film from beginning to end! A genre film that is full of adventure and romance—A film that all science fiction films can pay homage to—A film the whole family can get lost in on a Saturday afternoon.




The cast is fantastic, the effects have now set the bar higher than ever for other films to match in scope and beauty, and Andrew Stanton has created a gem that is a complete success in his first foray into live-action filmmaking!


The unfortunate circumstances surrounding John Carter’s lack of box office success in the US should not reflect on the excellence of the film itself, which the public will recognize, and are recognizing, when they see it. Internationally, John Carter has done extremely well and were it not for these strange and unfortunate circumstances in the states, it would have become the blockbuster it fully deserves to be.


As huge fans of this film, we are spreading positive reviews and slowly, but surely, we are seeing results. As great word-of-mouth grows, so will audiences who will all be begging for that much-desired sequel.


This is not a sprint, but a marathon. Our mission will not stop once John Carter is out of theaters. We will grow our base by leaps and bounds, once viewers see John Carter at home, and we will not sit still until we get that sequel green-lit by Disney Studios! This could prove to be a very unique situation that Disney could use in its favor when the time comes to announce that sequel. I can see the headlines now:


Enthusiastic Fans Turn Apparent John Carter Failure Into Success! Get Ready For ‘John Carter: The Gods Of Mars!’”

“Disney’s John Carter Goes From Flop To Fantastic!”
“John Carter Fans Cry Fowl, Turn The Tide, And Disney’s Bomb Explodes Into Success!”

Bring Back John Carter! Please take us Back To Barsoom!!! We Want A John Carter Sequel!



Sincerely,
Sincerely,
[Your name]

Thursday, 25 July 2013

Selvagens - 131° ao 140° Capítulo


Selvagens (Savages)

Don Winslow




131

Nisso ele tem razão, então Chon e Ben vão para o estande de tiro.
Chon vai ao estande o tempo todo não por estar se preparando para a revolução ou a Reconquista, não porque tenha sonhos eróticos fálicos sobre proteger lar e família de ventanistas ou da invasão de casas. É impossível não amar esse lance de “invasão de casas” achamos que seriam os mexicanos, mas no final foi a especulação imobiliária.
Chon gosta de atirar.
Ele gosta de sentir o metal na mão, o impacto, o recuo, a precisão da química, da física e da engenharia aliadas à coordenação mão-olho. Para não mencionar poder — disparar uma arma projeta sua vontade pessoal através de tempo e espaço em um átimo. Eu quero atingir aquilo, e aquilo é atingido. Da sua mente direto para o mundo físico. Sabe suas apresentações de PowerPoint?
Você pode passar 50 mil anos praticando meditação ou pode comprar uma arma.
No estande de tiro você cria um furinho preciso em um pedaço de papel — a entrada seca, mas não o descuidado ferimento de saída — e é profundamente gratificante. De qualquer forma, Chon gosta de armas de fogo, são as ferramentas do seu negócio.
(A distinção, antropologicamente falando, entre uma “ferramenta” e uma “arma” é que a primeira é usada em objetos inanimados, e a segunda em objetos animados, se é que você compreende o conceito de “objetos” animados.)
Ben nem tanto, pois foi ensinado a odiar armas
E donos de armas.
Os quais, na casa liberal de Ben, eram objeto de desprezo. Idiotas caipiras atávicos e malucos de direita. Seus pais balançavam a cabeça e davam risinhos melancólicos à visão do velho adesivo Você só vai tomar minha arma quando a arrancar de minhas mãos mortas. Que triste, que triste, quão atrasado. Armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. (Armas matam pessoas sim, diz Chon — é para isso que elas existem, porra.) Sim, pessoas com armas, diria o pai de Ben.
De qualquer forma, Ben é não violento por natureza.


132

— Impossível — Chon argumentou com ele certa vez. — Somos violentos por natureza, não violentos por treinamento.
— Exatamente o contrário — contestou Ben. — Somos socialmente condicionados à violência.
— Veja os chimpanzés.
— O que tem eles?
— Nós partilhamos 97 por cento do nosso DNA com os chimpanzés, e eles são cretininhos violentos que matam uns aos outros — disse Chon. — Você não pode me dizer que eles são socialmente condicionados a isso.
— Está dizendo que somos chimpanzés?
— Está dizendo que não somos?
Claro que somos chimpanzés.
Somos chimpanzés com armas.
Chon se lembra de um velho ditado que diz que, se você deixar um número suficiente de chimpanzés em uma sala com máquinas de escrever suficientes, eles acabarão produzindo Romeu e Julieta, e fica pensando se a mesma teoria vale para as armas. Se você deixar um número suficiente de chimpanzés em uma sala com MAC-10s suficientes, será que todos acabarão atirando uns nos outros?
Tudo de que você precisa é um chimpanzé interessado no futuro. Uma única Chita sociopata com curiosidade suficiente, cérebro e fúria interior para apontar a arma e puxar o gatilho, e começou, cara. Macaco vê, macaco faz — chumbo e pedaços de Bonzo estariam ricocheteando naquelas paredes até que o último chimpanzé de pé (previsivelmente) estivesse mortalmente ferido.
Chon fica se perguntando se Deus (supondo-se um fato não comprovado) algum dia pensou: Hmmmm, se você deixar humanos em número suficiente em um planeta com o átomo, será que eles… Claro que sim, porra, Chon sabe, claro que faremos, porra, nós jogamos aviões contra prédios intencionalmente em nome de Deus. (Bem, não exatamente em nome de “Deus”, mas…)
Enfim, enfim, que seja assim.


133

Chon leva Ben para o estande de tiro.
Que hoje, como de hábito, está cheio de tipos policiais, tipos militares e mulheres, algumas das quais são tipos policiais ou militares.
As mulheres de Orange County adoram disparar essas armas, cara. Talvez Freud tivesse razão, quem sabe, mas elas estão lá com seus brincos (tiraram para colocar os protetores de ouvido), suas joias, sua maquiagem e seu perfume mandando ver em possíveis ventanistas, invasores de casas, estupradores e maridos, ex-maridos, namorados, amantes, pais, padrastos, patrões, empregados que não a respeitam…
É uma velha piada que nos estandes de tiro as mulheres não apontam na cabeça, mas na virilha, que elas não miram no centro do alvo, mas no meio das pernas, até que os instrutores simplesmente desistem e as ensinam a apontar para os joelhos, porque a pistola vai subir tanto que elas apanharão namorado/maridinho/papai/ex-namorado/ex-maridinho direto na pica.
Veja O., por exemplo.
Chon a levou ao estande de tiro um dia para rir um pouco.
A garota sabia atirar.
Talento nato.
(Já mencionamos que O. gosta de ferramentas poderosas, não?)
Ela disparou seis tiros — dois de cada vez, como Chon a orientou —, cada um deles em pontos fatais do alvo. Baixou a arma e disse:
— Acho que gozei um pouquinho.
Agora Chon dá uma pistola a Ben.
— É só apontar e atirar — diz Chon a ele. — Não pense demais.
Porque Ben pensa demais em tudo. Chon se surpreende que o garoto consiga mijar sem sucumbir a uma paralisia mental. (Seria melhor tirar o pau da calça com a mão direita ou a esquerda? Será que a escolha da mão esquerda teria uma relação inconsciente com o conceito de “sinistro”, em oposição ao fato de a minha mão direita parecer “destra”, e por que a urina está escorrendo pela minha perna?)
E de fato Ben está olhando para a silhueta do alvo e pensando se não haverá estandes de tiro negros em que o alvo seja uma figura branca sobre um fundo preto, um ameaçador membro da KKK surgindo na noite do Mississippi. Provavelmente não. Não em Orange County (que protege com zelo seus direitos da Segunda Emenda), onde devem simplesmente colocar um sombreiro nos alvos e detonar todos eles.
Toma essa, Pancho. E essa, e essa.
Ben odeia isso, sente-se totalmente deslocado naquela pervertida caixa de areia neofascista, focado na silhueta preta, embora desracializada, que o olha ameaçadoramente enquanto Chon diz alguma coisa sobre…
— Aponte e dispare duas vezes.
— Duas vezes.
Chon anui.
— Sua coordenação olho-mão se corrige automaticamente para o segundo tiro.
— Para que parte eu devo apontar? — ele pergunta a Chon.
— Apenas acerte essa porcaria — responde Chon. À distância que eles provavelmente estão imaginando, isso não vai fazer diferença, e de qualquer forma o choque hidrostático dá conta do serviço. A bala, ao atingir o sujeito, cria uma parede de sangue que chega ao coração como um tsunami — recepção.
Ben aponta e dispara.
Duas vezes.
Bang bang.
Não acerta parte nenhuma da silhueta.
Duas vezes.
Seria exigir demais para a correção automática.
— Você vai ter que melhorar nisso — diz Chon.
Relembrando o que seus instrutores dos Seals disseram:
Quanto mais suor no campo de treinamento…
… menos sangue no campo de batalha.


134

Bem, pensa O.
Pelo menos eu consegui o meu próprio reality show
Ela ergue os olhos para a câmera de vídeo montada no alto da parede, que a monitora 24 por dia, sete dias por semana.
A sinopse do episódio no site da MTV:
O. é dopada
O. é sequestrada
O. é ameaçada de decapitação (ou talvez O. encontra Jason)
O. é mantida refém
Típico de primeira temporada.
Então ela define o gancho do fim da temporada —
Será que O. vai sobreviver, ou O. será
Eliminada?


135

Esteban está intrigado com a garota.
Mas é claro que ele está, você acha o quê?
Gata anglo, guera, guapa, e aquelas tatuagens descendo pelo braço? Sereia e tudo o mais? E aqueles olhos azuis?
Ela é uma bruja, uma bruxa, uma feiticeira.
Não, não entenda mal. Esteban não está apaixonado por ela. Será que o pau dele iria gostar dela? Claro — paus têm cabeças próprias. Mas ele está apaixonado por Lourdes, é fiel a ela e à sua barrigona.
Mas ele não pode vê-la.
Pode ligar para ela, mas agora Lado o quer ali, tomando conta da refém guera.
Levando refeições, vigiando, garantindo que não fuja. Lado ia cortar a cabeça da garota; Esteban está bem contente por isso não ter acontecido.
Não sabe como teria reagido, ainda está tentando tirar aquela outra coisa da cabeça, aquele lance do advogado, se contorcendo no chão, implorando, chorando.
Esteban ainda pode ver a própria mão puxando o gatilho, os miolos e os cabelos do advogado saindo pela nuca — ele ainda tem vontade de chorar toda vez que pensa nisso, ou seja, toda hora.
Então ele realmente torce para que Lado não queira que ele faça algo com aquela garota.
Ela parece legal.
Loca, mas legal.


136

A própria Elena está um tanto intrigada com O.
Às vezes ela se senta ao computador, liga a câmera e a observa.
A garota tem uma clara noção de estilo, embora estranha. Muito pessoal, ousada demais, a tatuagem é bizarra, mas é preciso admirar a coragem, a independência.
Elena realmente espera não ter que matá-la.


137

A opção um é Entrar no Jogo e Obedecer, então…
A primeira reunião de Ben com seus novos empregadores acontece em uma sala do Surf & Sand; caro, mas ainda assim mais barato que o Montage.
Alex e Jaime chegam acompanhados por napalm.
Ou seja, o cheiro da vitória.
Realizados, enfastiados, doentios e ofensivos.
Chegam acompanhados de algo mais: um mexicano de meia-idade que apresentam não pelo nome, mas como o Homem, o CEO do CB em OC.
Ben lamenta Chon não estar lá, pois ele iria adorar aquilo.
O CEOCBOC não diz nada, apenas olha para Ben enquanto A&J explicam que tudo o que estão prestes a contar vem diretamente do CEOCBOC, cujo par de olhos é o mais frio que Ben já viu sem ser em um vídeo de refém.
Especificamente aquele estrelado por O.
E por esse cara, que Ben identifica como o Sr. Motosserra.
Eles explicam a Ben que:
Ele vai lhes fornecer a localização de suas estufas e
Vai avisá-los, por intermédio de Alex, quando uma safra estiver pronta, momento este em que
O CB enviará uma equipe para buscá-la, com
O pagamento acordado, e nesse meio-tempo
Ben deveria começar a entrar em contato com seus clientes de modo a apresentar-lhes as mudanças e a garantir que se adaptem à nova ordem das coisas e
Caso Ben tenha algum problema deverá entrar em contato com
Alex ou Jaime, mas eles esperam sinceramente que Ben não tenha nenhum problema, e que
O CB não tenha nenhum problema com Ben, mas, caso tenha, Jaime ou Alex irão procurá-lo, e o problema será rapidamente resolvido, ou
Ele verá novamente o Sr. Motosserra, que irá resolver o problema, matando O.
Ben entende?
Ben entende: Ben é objetivo da prisão de amor repetidamente por três anos ou por 20 milhões de dólares. Ele dá a eles a localização de uma casa com estufa cuja colheita está prevista para daqui a dois dias.
Isso deve lhe dar tempo para planejar algo.


138

Uma sentença de três anos
O. contempla
A não ser que seus rapazes apareçam com o Monet.
(O. foi reprovada duas vezes em história da arte, em parte por sua incapacidade de diferenciar Monet de Manet, em parte por sua incapacidade de ir às aulas.) Mas ela consegue diferenciar money de Monet, o suficiente para saber que 20 milhões é muito de ambos, e, embora seus rapazes não fossem hesitar em abrir mão desse valor caso o tivessem, ela acha que eles não o têm.
Ainda não.
Então ela vai cumprir algum tempo dessa sentença.
Durante um breve mas interessante período de sua curta vida, O. teve uma queda por Filmes de Penitenciária Feminina. Ela e Ash costumavam se sentar para assistir a vídeos antigos. Chained Heat, Canned Heat, Chained Canned Heat. Sempre havia uma gatinha que era trancada com um bando de fanchonas hardcore, um carcereiro ou uma carcereira hostil e uma prisioneira mais gentil e mais velha que fazia a figura materna, e O. e Ash gozavam com o pornô lésbico light. O que elas mais gostavam de fazer era tirar o som e criar os diálogos.
Então ela acha que sabe um pouco sobre cumprir sentenças.
Ao menos eles tiraram a venda. Colocaram-na em um quarto com uma cama, uma cadeira, um banheiro anexo com vaso, pia e chuveiro. Há uma janela, mas eles a cobriram, impedindo-a de dar uma olhada e tentar adivinhar que porra de lugar é esse em que ela está.
E, claro, a única porta é trancada por fora.
Três vezes por dia aquele mexicano gentil e tímido entra com uma refeição numa bandeja. O. perguntou, mas o garoto não disse seu nome.
O café da manhã é sempre um pãozinho com manteiga e geleia de morango.
O almoço é um sanduíche de manteiga de amendoim e geleia.
O jantar é alguma coisa de micro-ondas.
Isso não vai dar certo.
Não durante três malditos anos, caso chegue a esse ponto.
Para começar, a repetição do vídeo a está deixando maluca.
Depois, quando o vídeo não está passando, ela morre de tédio.
Então…
Ela começa a levar a cabeça para fazer uns pequenos passeios lá fora.


139

Mais tarde naquela noite Ben e Chon estão sentados no escritório da Brooks Street vendo Jeff e Craig fazer o vodu de computador.
Jeff, de bermuda de praia e camiseta, recosta-se na cadeira com o laptop no colo e os pés descalços sobre a mesa. Dá um tapa em um baseado e olha para a tela enquanto Craig fala com Dennis pelo headset.
Craig está vestido formalmente para a ocasião: jeans, tênis e uma camisa com mangas. Ele coloca a mão sobre o microfone, sorri e diz:
— Seu garoto está nervoso.
— Você consegue passar pelo firewall da DEA? — pergunta Ben.
Craig revira os olhos. Jeff sorri e diz:
— A gente conhece os caras que criaram o software. Gente fina, mas…
— Estamos com ele — diz Craig.
Ele gira a cadeira para que Ben possa ver a tela.
— Agora é moleza — diz ele ao telefone. — Estou vendo o mesmo que você.
Ele começa a falar a língua dos geeks: combinações de números e letras, “alt” isso, “enter” aquilo. De tempos em tempos imita um sotaque indiano, porque acha engraçado. (“Só estou tentando melhorar o clima.”) Não é. Uns vinte minutos depois Craig diz ao telefone:
— Certo, aperte o botão e você me passa o joystick.
Dennis faz isso.
— Agora é a Amazon — diz Jeff a Ben. — Boas compras.


140

O. cria uma nova persona para si mesma.
Heroína trágica.
Em oposição à namorada tragicamente ligada em heroína, uma fantasia anterior envolvendo o vício não existente de Chon.
Mas é legal estar no centro do palco, ou centro do cadafalso, desde que a coisa não aconteça de verdade, em vez de ser a companheira que apoia os protagonistas, e esse personagem você já viu em alguns milhares de filmes e programas de TV.
Então ela usa como modelo Mulheres Famosas que Foram Decapitadas ou, mais precisamente, Mulheres Famosas Por Terem Sido Decapitadas, porque, tipo, nenhuma dessas moçoilas teria sido sequer mencionada não fossem suas saídas de cena espetaculares.
O. consulta a história para isso.
O. que é trabalhoso, porque ela nunca leu nada de verdade. Todo o seu estudo para esse papel vem de séries de TV, as quais ela já viu muitas.
Enfim: ela faz uma relação (mental):
Maria Antonieta, claro.
Boas roupas — a garota sabia fazer compras. Solte MA no South Coast Plaza ou em Fashion Valley e você vai ver que ela arrasa.
O. conhece Maria (elas se tratam com intimidade agora, dada a experiência que têm em comum) basicamente do filme com a Kirsten Dunst. O filme tinha umas músicas muito legais — New Order, The Cure, Siouxsie and the Banshees —, e Maria se casou aos 14 anos e não conseguiu fazer com que o marido a comesse até finalmente explicar a ele que era como uma chave entrando numa fechadura, o que aparentemente o entusiasmou. Mas então ela se meteu em muitos problemas por comer muitos doces e dar festas, algo com que O. se identifica, porque Rupa nunca aprovou nada disso. O filme na verdade não chega a mostrar Maria perdendo a cabeça, mas O. se lembra de algo desse acontecimento da aula de história no ensino médio, e também de algo relacionado à garota dizendo “Que comam brioches” — coisa que, sabe, seria algo legal de se fazer, mas nunca se sabe o que vai irritar os franceses.
Então tem a Maria, e também a Ana Bolena, que O. conhece da série de TV e de um filme sobre a irmã dela. Aparentemente a garota era uma piranha. Deu para um monte de caras, inclusive o próprio irmão, talvez. O. não usa esse lance de ser piranha contra ela — O. também já deu para muitos caras, e nunca teve um irmão (uma gravidez já era demais para Rupa, muito obrigada. Ela deu uma saidinha para ligar as trompas depois de O.), então quem sabe?
De qualquer forma, a garota da série era muito gata. Um corpinho felino, e ela era, tipo, devassa, e O. e Ash se ligaram muito nela e muito no cara que interpretava Henrique VIII, então quando eles se pegaram foi Ai Meu Deus. Mas então o VIII se cansou dela e ela não conseguiu gerar um menino, e eles a condenaram à morte por dar para o irmão e para algum outro cara, e ela saiu da Torre parecendo toda pudica e tal e se ajoelhou diante do cepo e esticou os braços, e seu pescoço era lindo e elegante, mas no que diz respeito a belos pescoços o troféu tem que ir para Natalie Portman, que interpretou Ana no filme, e Ana era uma senhora provocadora. Uma arte que O. nunca dominou, mas na verdade nunca tentou, porque ela realmente gosta muito de paus, então por que fingir que não gosta?
Então tem Maria Antonieta e Ana Bolena.
Tinha uma Catarina alguma coisa, mas isso na quarta temporada, que ainda não passou, então O. não sabe nada sobre ela.
E tinha Lady Jane Grey, interpretada naquele filme antigo por aquela mulher que fez também os filmes de Harry Potter, e ela foi rainha por apenas nove dias, o que é brochante, e O. não consegue lembrar por que eles cortaram sua cabeça, só lembra que cortaram.
Maria, Rainha da Escócia.
O. tem certeza de que ela foi decapitada, porque leu alguma coisa sobre Scarlett Johansson estrelar o filme, mas algo aconteceu e acabaram não filmando nada, coisa que O. acha um erro, porque um monte de gatas despeitadas, ela incluída, pagaria alegremente 10 pratas para ver Scarlett ter sua cabeça cortada.
O. decide ficar com Maria Antonieta.
Que comam brioches.
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