Friday, 31 May 2013

NOOOSSA!!!!

É muita sacanagem, termos que olhar isso tudo e não poder pegar! kkkkk
Sinceramente eu não sei pra onde eu olho, alguém me ajuda por favor... Ele é todo perfeito, que corpo é esse!!!!!




Fonte: Arquivo Blog


SORTUDAAA!!!

Essa garota é muito sortuda, ela fez par com o Tay Tay na série Friday Night Lights... Reza a lenda que também se pegaram na vida real, mas como boatos surgem todo dia, não me apego a isso. Enfim, cada vez que assistia essa série eu invejava essa menina, sempre tive vontade de entrar na TV, arrancar ela dali e ficar no lugar... kkkk Tudo bem que ela não foi a única que ele ficou na série, mas ela foi diferente...







Fonte: Arquivo Blog


video Taylor Kitsch #2

otro hecho por mi






Uma Princesa de Marte - 24° Capítulo

Capítulo 24 - TARS TARKAS ENCONTRA UM
ALIADO


Por volta do meio-dia, passei voando baixo sobre uma grande cidade em ruínas da antiga Marte. Enquanto eu deslizava sobre a planície à minha frente, dei de encontro com alguns milhares de guerreiros verdes engajados em uma tremenda batalha. Mal eu os havia avistado e uma rajada de tiros veio em minha direção. Com sua quase infalível acuidade de mira, minha pequena nave foi instantaneamente transformada em ruínas, caindo erraticamente para o chão. Caí praticamente no centro do combate selvagem, entre guerreiros que não haviam visto minha aproximação - tão ocupados estavam em sua luta de vida ou morte. Os homens lutavam a pé, com espadas longas, enquanto, na periferia do conflito, o disparo ocasional de um atirador de elite derrubava guerreiros que tentassem por algum instante se separar da massa confusa. Conforme minha máquina desapareceu entre eles, percebi que era lutar ou morrer, com grandes chances de morrer de qualquer maneira. E assim atingi o chão desembainhando minha espada longa pronto para me defender da melhor maneira.
Caí perto de um grande monstro que estava em combate com três antagonistas. Quando olhei de soslaio sua face brutal, iluminada pela luz da batalha, reconheci Tars Tarkas. Ele não me viu, pois eu estava um pouco atrás dele. Nesse momento os três guerreiros inimigos - que reconheci como warhoons - atacaram simultaneamente. O poderoso ser agiu rápido contra um deles, mas ao dar um passo para trás preparando outro golpe, caiu sobre um dos mortos e ficou à mercê de seus opositores por um instante. Rápidos como raios, eles se abateram sobre o thark, e os pedaços de Tars Tarkas teriam de ser recolhidos posteriormente se eu não tivesse saltado à frente de sua forma prostrada para combater seus adversários. Eu já havia dado cabo de um deles quando o poderoso thark recobrou seu equilíbrio e rapidamente exterminou o outro.
Ele me lançou um olhar e um leve sorriso se formou em seus lábios macabros. Tocando meu ombro, disse: -
Eu mal poderia reconhecê-lo, John Carter, mas nenhum outro mortal sobre Barsoom faria o que você fez por mim. Acho que aprendi que existe a tal coisa chamada amizade,
meu amigo.
Ele não disse mais nada - ou sequer teria a oportunidade para isso -, porque os warhoons estavam se aproximando de nós. Juntos, lutamos ombro a ombro durante toda aquela longa e quente tarde até que a maré da batalha mudasse e que os remanescentes da feroz horda warhoon recuassem montando seus thoats e fugissem na escuridão que se formava. Dez mil homens haviam se envolvido nessa batalha titânica, e sobre o campo da batalha havia três mil mortos. Nenhum lado pediu, ofereceu, ou mesmo tentou, fazer prisioneiros. Em nosso retorno ã cidade após a batalha, seguimos diretamente para os alojamentos de Tars Tarkas, onde fui deixado a sós enquanto o líder atendia à costumeira reunião do conselho que se segue imediatamente após um conflito. Enquanto esperava sentado o retorno do guerreiro verde, ouvi algo se movendo no apartamento ao lado e, quando fui ver o que era, uma grande e odiosa criatura disparou em minha direção, jogando-me contra uma pilha de sedas e peles sobre a qual eu estava deitado momentos antes. Era Woola... fiel e querido Woola. Ele havia encontrado o caminho de volta a Thark, como Tars Tarkas me contaria depois, e ido imediatamente aos meus antigos aposentos, onde iniciou uma patética e aparentemente infrutífera vigília esperando meu retorno.
Tal Hajus sabe que está aqui, John Carter - disse Tars Tarkas quando retornou das dependências do jeddak. - Sarkoja o viu e o reconheceu quando voltávamos. Tal Hajus ordenou que eu o levasse até ele esta noite. Eu tenho dez thoats, John Carter. Você pode ter uma chance com eles, e eu o acompanharei até a hidrovia mais próxima que leva a Helium. Tars Tarkas pode ser um guerreiro verde cruel, mas também pode ser amigo. Venha não percamos tempo.
E quando você retornar, Tars Tarkas? - perguntei.
Os calots selvagens, talvez. Ou pior - ele respondeu. - Exceto se eu tiver a oportunidade que espero há tanto tempo de enfrentar Tal Hajus em combate.
Nós ficaremos, Tars Tarkas, e veremos Tal Hajus esta noite. Você não precisa se sacrificar e talvez seja esta a noite que guarda a chance que tanto espera.
Ele discordou energicamente, dizendo que Tal Hajus ainda era assolado por uma fúria selvagem apenas por lembrar do murro que eu havia lhe acertado, e que se tivesse a chance de colocar as mãos em mim, eu seria sujeitado às mais terríveis torturas. Enquanto comíamos, repeti a Tars Tarkas a história que Sola havia me contado naquela noite no fundo do mar, durante a marcha para Thark. Ele falou pouco, mas os músculos de sua face se revolveram em paixão e agonia pela lembrança dos horrores que haviam se abatido sobre a única coisa que ele jamais amou em sua fria, cruel e terrível existência. Assim, não mais avesso à minha sugestão de irmos ter com Tal Hajus, me disse apenas que antes gostaria de falar com Sarkoja. Atendendo seu pedido, acompanhei-o até os aposentos dela e o olhar de ódio perverso que ela lançou sobre mim foi a recompensa mais gratificante para qualquer desventura futura que esse retorno acidental a Thark poderia me trazer.
Sarkoja - disse Tars Tarkas -, quarenta anos atrás você serviu de instrumento para a tortura e morte de uma mulher chamada Kozava. Acabei de descobrir que o guerreiro que amava aquela mulher agora sabe de seu papel na trama. Talvez ele não mate você, Sarkoja, pois este não é nosso costume, mas não há nada que o impeça de amarrar a ponta de uma correia em seu pescoço e a outra em um thoat selvagem, simplesmente para testar sua capacidade de sobrevivência e assim ajudar a perpetuar nossa raça. Ao ouvir isso, ele jurou que realizaria tal feito pela manhã, e achei correto avisá-la, porque sou um homem justo. O rio Iss fica a uma pequena peregrinação de distância, Sarkoja. Venha, John Carter.
Na manhã seguinte, Sarkoja havia partido e nunca mais foi vista. Em silêncio, caminhamos rapidamente ao palácio do jeddak, onde fomos levados imediatamente à sua presença. Na verdade, ele mal podia esperar para me ver e estava em pé sobre sua plataforma olhando fixamente para a porta de entrada quando chegamos.
Amarre-o naquele pilar - ele guinchou. - Vamos ver quem ousou agredir o poderoso Tal Hajus. Aqueçam os ferros. Com minhas próprias mãos queimarei seus olhos ainda em sua cabeça para que seu olhar não enoje minha pessoa.
Líderes de Thark - eu bradei, voltando-me para a assembléia do conselho e ignorando Tal Hajus. - Sou um líder como vocês e hoje lutei lado a lado com seu maior guerreiro. Vocês me devem, ao menos, uma audiência. Fiz por merecer por meus atos de hoje. Você clamam ser apenas pessoas...
Silêncio - rugiu Tal Hajus. - Amordacem a criatura e prendam-na como ordenei.
Justiça, Tal Hajus - exclamou Lorquas Ptomel. - Quem é você para colocar de lado os costumes ancestrais dos tharks?
Sim, justiça! - ecoou outra dúzia de vozes e, assim, enquanto Tal Hajus fumegava e espumava, continuei: Vocês são um povo valente e amam a bravura, mas onde estava seu poderoso jeddak durante a batalha de hoje? Eu não o vi no calor do confronto, pois ele não estava lá. Ele mutila mulheres indefesas e crianças em seu lar, mas qual foi a última vez que o viram lutando com homens? Ora, até mesmo eu, um anão perto dele, derrubei-o com um único golpe de meu punho. Não é assim que os tharks escolhem seus jeddaks? Aqui ao meu lado está um grande thark, um poderoso guerreiro e um homem nobre. Líderes, como soa "Tars Tarkas, jeddak de Thark"?
Um clamor de concordância ressoou saudando essa sugestão.
Permanece a este conselho o comando, e Tal Hajus deve provar sua capacidade de reinar. Se fosse um homem valente, desafiaria Tars Tarkas ao combate, mas ele não o fará, porque Tal Hajus tem medo. Tal Hajus, seu jeddak, é um covarde. Eu poderia tê-lo matado com minhas próprias mãos, e ele sabe disso.
Depois que terminei, houve um silêncio nervoso, enquanto todos os olhos de voltavam sobre Tal Hajus. Ele não falou ou se moveu, mas o verde malhado de seu semblante ficou lívido e a espuma congelou em seus lábios.
Tal Hajus - disse Lorquas Ptomel com uma voz fria e dura nunca em toda a minha vida presenciei um jeddak dos tharks ser tão humilhado. Só pode haver uma resposta para essa acusação. Esperamos por ela. Mesmo assim, Tal Hajus continuou estático, petrificado.
Líderes - continuou Lorquas Ptomel -, deve o jeddak Tal Hajus provar para Tars Tarkas sua capacidade de governar?
Havia vinte líderes sobre a tribuna, e vinte espadas brilharam no alto em concordância.
Não havia alternativa. A decisão era definitiva e assim Tal Hajus desembainhou sua espada longa e avançou para encontrar Tars Tarkas. O combate logo estava terminado e, com seu pé sobre o pescoço do monstro morto, Tars Tarkas tornou-se o jeddak dos tharks. Seu primeiro ato foi fazer de mim um líder completo, com a patente que eu havia conquistado por meus combates nas primeiras semanas de cativeiro entre eles. Vendo a disposição favorável dos guerreiros em relação a Tars Tarkas, assim como em relação a mim, aproveitei a oportunidade para engajá-los à minha causa contra Zodanga. Contei a Tars Tarkas a história de minhas aventuras e, em poucas palavras, expliquei a ele o que se passava em minha mente. John Carter sugere que a resgatemos e a devolvamos a Helium. O saque a Zodanga será magnífico, e eventualmente tenho pensado que se tivéssemos uma aliança com o povo de Helium, poderíamos obter segurança e sustentabilidade suficientes para permitir um aumento do volume e freqüência de nossas ninhadas e, assim, tornarmo-nos inquestionavelmente soberanos entre os homens verdes de toda a Barsoom. O que me dizem?
Era uma chance de lutar, uma oportunidade de saquear, e eles morderam a isca como um rato corre para a ratoeira. Para tharks, eles eram extremamente entusiasmados e, antes que outra meia hora se passasse, vinte
mensageiros montados já estavam cavalgando pelos fundos dos mares mortos para anunciar a reunião das hordas para a expedição. Em três dias estávamos em marcha rumo a Zodanga. Éramos cem mil bravos depois de Tars Tarkas ter recrutado os serviços de três hordas menores com a promessa da grande pilhagem a Zodanga. Eu cavalgava na dianteira da coluna ao lado do grande thark enquanto, aos pés de minha montaria, meu amado Woola nos acompanhava. Viajamos sempre à noite, calculando nossa marcha para que acampássemos durante o dia nas cidades desertas nas quais, inclusive as feras, ficávamos o tempo todo na parte interna das construções. Durante a marcha, Tars Tarkas fez uso de sua considerável habilidade como governante e recrutou outros cinqüenta mil guerreiros de várias hordas. Assim, dez dias após termos partido, paramos à meia-noite do lado de fora da grande cidade fortificada de Zodanga. Cento e cinqüenta mil bravos.
A força de combate e a eficiência dessas hordas de ferozes monstros verdes eram equivalentes a dez vezes o mesmo número de homens vermelhos. Tars Tarkas me disse que nunca na história de Barsoom uma força de guerreiros verdes como essa havia marchado para a guerra juntos. Era uma tarefa colossal manter qualquer tipo de harmonia entre eles, e é inacreditável para mim que ele tenha levado todos até a cidade sem que um grande motim irrompesse entre eles. Mas ao nos aproximarmos de Zodanga, suas disputas pessoais haviam sucumbido perante ao ódio maior que sentiam pelos homens vermelhos e, em especial, aos zodanganos, que por anos haviam empreendido uma campanha brutal pela completa exterminação dos homens verdes, dirigindo atenção especial à destruição de suas incubadoras. Agora que Zodanga estava diante de nós, a tarefa de obter um meio de entrar na cidade foi delegada a mim. Aconselhando Tars Tarkas a manter suas forças divididas em duas frentes fora do alcance das sentinelas da cidade - cada uma alinhada a cada um dos grandes portões -, reuni vinte guerreiros desmontados e me aproximei de um dos pequenos portões que pontilhavam as muralhas em pequenos intervalos. Esses portões não têm guardas fixos, mas são cobertos por sentinelas que patrulham a avenida que circunda a cidade beirando os muros assim como nossas polícias metropolitanas patrulham suas jurisdições. As muralhas de Zodanga têm vinte e dois metros de altura e quinze de espessura. São construídas de enormes blocos de carboneto de silício, e a missão de adentrar a cidade parecia, aos guerreiros verdes que me acompanhavam, impossível. Os indivíduos que haviam sido instruídos a me seguir eram de uma das hordas menores e, portanto, não me conheciam. Colocando três deles voltados para o muro, seus braços enganchados uns nos outros, ordenei que dois outros montassem em seus ombros e, a um sexto, ordenei que escalasse os ombros dos dois acima. A cabeça do guerreiro no ápice ficava a doze metros do chão.
Dessa forma, com dez guerreiros, construí uma série de três degraus do solo até os ombros do guerreiro do topo. Guardando uma pequena distância atrás deles, tomei impulso correndo, subindo de uma fileira para a próxima e, com um salto final dos ombros largos do último deles, me agarrei firmemente ao topo da grande muralha e silenciosamente me projetei para o vasto plano que a encimava. Eu arrastava atrás de mim seis tiras de couro amarradas, emprestadas de seis guerreiros. Essas tiras haviam sido previamente presas umas às outras e, passando a ponta de uma para o guerreiro mais próximo do topo, desci a outra ponta cuidadosamente sobre o lado oposto do muro, na direção da avenida abaixo. Não havia ninguém à vista, e assim desci até a ponta da corda de couro e saltei os dez metros restantes até o pavimento. Kantos Kan havia me ensinado o segredo para abrir esses portões. No momento seguinte, vinte grandes guerreiros estavam dentro da cidade condenada de Zodanga. Descobri, para minha alegria, que eu havia entrado na periferia mais baixa do enorme terreno do palácio. A construção se apresentava ao longe com uma luz de brilho glorioso e, na mesma hora, enviei um destacamento de guerreiros diretamente para o interior do palácio enquanto o restante da valente horda atacava as barracas dos soldados. Despachei um de meus homens para pedir a Tars Tarkas uma unidade de cinqüenta tharks, anunciando minhas intenções. Ordenei que dez guerreiros tomassem e abrissem um dos portões maiores enquanto eu e os outros nove remanescentes abriríamos o outro. Precisávamos fazer nosso trabalho em silêncio e nenhum tiro deveria ser disparado, nenhum avanço em grupo deveria ser feito até que eu tivesse chegado ao palácio com meus cinqüenta tharks. 
Nosso plano funcionou perfeitamente. As duas sentinelas que encontramos foram encomendadas aos seus deuses sobre os bancos do mar perdido de Korus, e os guardas de ambos os portões os seguiram em silêncio.

Entrevistas

Essas entrevistas são bem antigas (2009), mas vale a pena assistir pois o Tay Tay está lindo como sempre e ele fala sobre seu personagem Tim Riggins na série Friday Night Lights...




The Bang Bang Club

Para quem ainda não viu e como não estão conseguindo baixar pelos links que postei, o filme Repórteres de Guerra (The Bang Bang Club) foi postado completo no Youtube legendado... Espero que gostem!


Uma Princesa de Marte - 23° Capítulo

Capítulo 23 - PERDIDO NO CÉU


Sem dificuldades para me esconder, apressei-me para as cercanias de nossos alojamentos, onde eu tinha certeza de que encontraria Kantos Kan. Ao me aproximar da construção, tornei-me mais cuidadoso porque julguei - acertadamente - que o lugar estaria sendo vigiado. Diversos homens em metais civis vadiavam perto da entrada central e o mesmo acontecia nos fundos. Meu único meio de alcançar o último andar onde ficavam nossos alojamentos era através do edifício adjacente e, depois de uma manobra considerável, consegui chegar ao telhado de uma loja várias portas adiante. Saltando de telhado em telhado, logo alcancei uma janela aberta no edifício onde esperava encontrar o heliumita. No momento seguinte eu estava parado à sua frente, dentro do cômodo. Ele estava sozinho e não demonstrou surpresa com minha chegada, dizendo que estava me esperando, pois meu turno já devia ter acabado há algum tempo. Percebi que ele não sabia dos eventos do dia no palácio e, quando o coloquei a par, ficou completamente excitado. A notícia de que Dejah Thoris havia prometido sua mão a Sab Than o preencheu de pavor.
- Não pode ser - exclamou. - É impossível! Ora, qualquer homem em toda a Helium preferiria morrer a entregar nossa amada princesa à dinastia de Zodanga. Ela deve ter enlouquecido para ter concordado com uma barganha tão atroz. Você, que agora sabe o quanto nós de Helium amamos nossa dinastia, não pode imaginar com que horror contemplo essa aliança maldita. O que pode ser feito, John Carter? - ele continuou. - Você é um homem de recursos. Não consegue pensar em um meio de salvar Helium da desgraça?
Se eu puder chegar a uma distância de Sab Than que minha espada alcance - respondi -, posso resolver a dificuldade que preocupa Helium. Mas, por razões pessoais, preferiria que outro desferisse o golpe que libertará Dejah Thoris. Kantos Kan me observou atentamente antes de falar:
Você a ama! - ele disse. - Ela sabe disso?
Ela sabe, Kantos Kan, e me repele simplesmente por causa de sua promessa a Sab Than.
A esplêndida figura levantou-se num salto e, me puxando pelo ombro, ergueu sua espada para o alto, exclamando: Se a decisão dependesse de mim, não teria escolhido um companheiro mais adequado para a primeira princesa de Barsoom. Eis aqui minha mão em seu ombro, John Carter, e minha palavra de que Sab Than sucumbirá pela ponta de minha espada, pelo amor que guardo por Helium, por Dejah Thoris e por você. Nesta mesma noite tentarei chegar até seus aposentos no palácio.
Como? - perguntei. - Ele está fortemente guardado e uma força quádrupla patrulha os céus.
Ele pendeu sua cabeça, pensativo por um momento, e então a levantou em sinal de confiança: Preciso apenas passar pelos guardas para fazê-lo - disse finalmente. - Conheço uma entrada secreta para o palácio através do pináculo da torre mais alta. Descobri essa passagem por acaso, quando estava em turno de patrulha voando sobre o palácio. Nesse trabalho é preciso que investiguemos qualquer ocorrência fora do comum, e um rosto espiando do pináculo mais alto era, para mim, fora do comum. Assim, me aproximei e descobri que o dono daquele rosto era ninguém menos que Sab Than. Ele ficou irritado por ter sido visto e ordenou que eu guardasse o fato somente para mim, explicando que aquela passagem da torre levava diretamente aos seus aposentos, e que somente ele sabia de sua existência. Se eu conseguir chegar ao telhado do quartel e pegar meu aeroplano, estarei no quarto de Sab Than em cinco minutos. Mas como posso escapar deste prédio se está tão vigiado como você diz?
Quão bem guardados são os hangares das máquinas? - perguntei.
Normalmente há apenas um homem em serviço durante a noite.
-Vá para o telhado deste prédio, Kantos Kan, e me espere lá. Sem parar para explicar meus planos, refiz meu caminho para a rua e me apressei para os galpões. Não ousei entrar no prédio, cheio como estava de membros do esquadrão de patrulha aérea que, assim como toda a Zodanga, procuravam por mim. O prédio era enorme, na retaguarda de um soberbo pico que se elevava trinta metros para o céu. Poucas construções em Zodanga eram mais altas que esses hangares, apesar de outras serem algumas dezenas de metros mais altas. Os atracadouros das grandes belonaves enfileiradas ficavam a quarenta e cinco metros do chão, ao passo que as estações de cargas e passageiros das esquadras mercantes se erguiam quase tão alto. Era uma longa escalada pela face lateral do prédio, e repleta de perigos. Mas não havia outro meio, e assim ensaiei a tarefa. O fato de a arquitetura barsoomiana ser extremamente ornamentada fez a missão ser muito mais simples do que o esperado, com suas reentrâncias e projeções enfeitadas formando uma escada perfeita por todo o caminho até o beiral do telhado do prédio. Ali, encontrei meu primeiro obstáculo real. A beira se projetava quase seis metros para além da parede na qual eu me segurava, e embora eu tivesse circulado o grande edifício, não encontrei nenhuma abertura através dela.
A cobertura estava acesa e forrada de soldados entretidos em seus passatempos. Portanto, eu não podia chegar ao telhado pelo edifício. Havia uma pequena e desesperada chance, a qual decidi arriscar; e qualquer homem que já viveu arriscaria mil mortes por alguém como Dejah Thoris. Agarrando-me à parede com os pés e uma mão, soltei uma das longas tiras de couro de meus paramentos. Em sua extremidade pendia um grande gancho usado pelos marinheiros para se pendurar nas laterais e no casco de suas naves quando reparos eram necessários e com os quais os grupos de aterrissagem descem das naves até o chão. Girei o gancho cuidadosamente e lancei-o até o telhado por várias vezes até que ele encontrasse um encaixe. Gentilmente o puxei para que ficasse mais bem fixado, mas eu não podia saber se aguentaria o peso de meu corpo. O gancho poderia estar preso em falso e escorregar, lançando- me para o pavimento trinta metros abaixo. Hesitei por um instante e depois, soltando-me do ornamento na parede, lancei-me no espaço segurando a ponta da tira. Muito abaixo de mim repousavam as ruas lindamente iluminadas, os duros pavimentos e a morte.
Houve um pequeno solavanco no topo onde o gancho se prendia e um traiçoeiro escorregão, com um rangido áspero que me congelou em apreensão. Então, o gancho se firmou e eu estava a salvo. Escalando rapidamente até o topo, agarrei-me no beiral e me projetei para a superfície do telhado acima. Assim que fiquei em pé, fui confrontado pelo sentinela em serviço, o qual encontrei ao encarar o cano de seu revólver.
Quem é você e de onde veio? - gritou.
Sou um patrulheiro aéreo, amigo, e por muito pouco não estou morto também. Escapei por pura obra do acaso de cair na avenida lá embaixo - respondi.
Mas como você chegou até o telhado, homem? Ninguém aterrissou ou decolou do prédio na última hora. Vamos, explique- -se ou chamarei a guarda.
-Venha olhar aqui, sentinela, e verá como cheguei e o quão pouco faltou para que eu não chegasse - respondi virando-me para a beira do telhado onde, seis metros abaixo, na ponta de minha tira, estavam amarradas todas as minhas armas.
O camarada, agindo pelo impulso da curiosidade, deu um passo para o meu lado e outro para sua desgraça. Quando ele se inclinou para espiar por sobre o beiral, agarrei-o pela garganta e pelo braço da pistola, arremessando-o pesadamente sobre o telhado. A arma soltou-se de sua mão e meus dedos abafaram sua tentativa de gritar por ajuda. Eu o amordacei e amarrei para depois pendurá-lo na mesma beirada do telhado onde eu estava pendurado momentos antes. Eu sabia que o descobririam somente pela manhã, e todo tempo que eu pudesse ganhar seria precioso. Vestindo meus paramentos e armas, apressei-me para os galpões e logo havia trazido para fora minha máquina e a de Kantos Kan. Amarrando a dele atrás da minha, liguei meu motor e planei sobre a borda do telhado para mergulhar sobre as ruas da cidade bem abaixo da altitude habitual da patrulha do ar. Em menos de um minuto pousava em segurança sobre o telhado de nosso apartamento diante de um Kantos Kan estupefato. Não perdi tempo com explicações e me pus rapidamente a discutir nossos planos para o futuro imediato. Ficou decidido que eu tentaria chegar a Helium enquanto Kantos Kan entraria no palácio para dar cabo de Sab Than. Se fosse bem-sucedido, ele deveria seguir meus passos. Ele ajustou a minha bússola, um engenhoso e pequeno apetrecho que indica permanentemente um determinado ponto fixo em toda a superfície de Barsoom. Despedimo-nos e alçamos vôo juntos, acelerando na direção do palácio que ficava na rota que eu deveria tomar para chegar a Helium. Ao nos aproximarmos da alta torre, a patrulha atirou em nós de cima para baixo, jogando a luz de seu ferino holofote em cheio sobre minha aeronave. Uma voz rugiu um comando de parada, seguido por um tiro pelo fato de eu ignorar o aviso. Kantos Kan mergulhou rapidamente para a escuridão enquanto eu subia constantemente a uma incrível velocidade rasgando os céus marcianos, perseguido por uma dúzia de naves de patrulha aérea unida em minha perseguição. Logo em seguida, um cruzador ligeiro levando cem homens e lima bateria de armas de fogo rápido se juntou a eles. Ziguezagueando minha pequena máquina, ora para cima, ora para baixo, consegui despistar seus holofotes na maior parte do tempo, mas também estava perdendo terreno com essa tática, e assim decidi arriscar tudo em um curso direto, deixando o resultado nas mãos do destino e da velocidade de minha máquina. Kantos Kan havia me ensinado um truque com a transmissão de marchas, conhecido apenas pela armada de Helium, que aumentava em muito a velocidade de nossas naves. Assim, me senti seguro em poder me distanciar de meus perseguidores se conseguisse desviar dos projéteis por mais alguns momentos.
Ao acelerar através do ar, o zumbido das balas ao meu redor me convenceu de que somente um milagre me faria escapar, mas a sorte já estava lançada. Coloquei a nave a toda velocidade e risquei uma linha reta em minha rota na direção a Helium. Gradualmente, deixei meus perseguidores mais e mais para trás, e já estava comemorando sozinho minha fuga quando um tiro certeiro do cruzador explodiu na proa de minha pequena nave. O impacto quase a fez emborcar, mas com um atordoante mergulho ela começou a cair pela escuridão da noite. O quanto eu caí antes de retomar o controle do aeroplano não saberia dizer, mas devia estar bem próximo ao chão quando comecei a subir novamente, porque pude ouvir claramente os ruídos dos animais logo abaixo. Novamente em rota ascendente, vasculhei os céus em busca de meus perseguidores e finalmente divisei suas luzes muito atrás de mim. Vi que estavam pousando, evidentemente à minha procura. Não arrisquei acender a pequena lâmpada de minha bússola antes que suas luzes não pudessem mais ser vistas. Para minha consternação, um fragmento do projétil havia danificado completamente meu único guia, assim como meu velocímetro. Era verdade que eu podia seguir as estrelas na direção de Helium, mas sem saber a exata localização da cidade ou a velocidade com que estava viajando, minhas chances de achá-la eram ínfimas. Helium fica a mil e seiscentos quilômetros a sudoeste de Zodanga, e com a bússola intacta eu teria chances de completar a jornada, exceto por algum acidente, dentro de quatro ou cinco horas. Da forma como as coisas aconteceram, a manhã me encontrou voando sobre a vastidão de um fundo de mar morto depois de seis horas de vôo contínuo a grande velocidade. Nesse momento, uma grande cidade apareceu sob mim, mas não era Helium, porque somente ela - de todas as metrópoles barsoomianas - possui duas imensas cidades circulares e muradas, separadas por cento e vinte quilômetros, o que seria fácil para mim distinguir da altura na qual voava.
Acreditando que eu havia ido longe demais para o norte e para o oeste, dei meia-volta na direção sudeste, passando no decorrer da manhã por várias grandes cidades, mas nenhuma que lembrasse a descrição que Kantos Kan havia feito de Helium. Além da formação de cidade-gêmea, Helium tem outra característica marcante, que são suas duas imensas torres: uma, de um vermelho vivido, ergue-se quase um quilômetro e meio para os céus, bem do centro de uma das cidades; a outra, de um amarelo brilhante e da mesma altura, simboliza sua irmã.

Tuesday, 28 May 2013

Entrevista Tay Tay para o Omelete

Velho mas bom. Divulgação de John Cater


Trailer do documentário sobre o African Children's Choir - dirigido pelo Tay Tay

Como sabemos, há anos Taylor tem não só apoiado, mas também seguido, incentivado e divulgado o trabalho do “African Children’s Choir“, sua instituição de caridade do coração. Ele chegou a comentar diversas vezes sobre a vontade de dirigir um documentário sobre a ONG. Veja abaixo o primeiro trailer do documentário, que tem como trilha sonora um de seus artistas favoritos, e logo após a descrição do mesmo, feita por Kitsch.



Depois de pouco mais um ano inteiro desde as filmagens na África (Quênia/Uganda/Ruanda/Republica do Sudan do Sul) durante 17 dias comigo e outra pessoa (TH)…Estamos finalmente animados em mostrar um pequeno trailer para uma organização com a qual tenho trabalhado há mais de 5 anos. O “African Children’s Choir”. Cada vez que deixei a África, a deixei inspirado, esperançoso e com sorte de ter sido afetado por tantas pessoas, especialmente as crianças. Eu fiz uma jornada através da África com o ACC para tentar capturar aquela mesma energia da qual fui envolvido…Inspirar esperança. Pelas crianças e as pessoas que continuam a fazer uma diferença em toda a parte. Para mostrar um vislumbre das coisas que eles fizeram e continuam a fazer. Eu quero agradecer todos envolvidos com o ACC que facilitaram esta viagem e as que estão a acontecer. Eu quero agradecer David Grey por sua música “Who’s Singing Now”.  Espero que vocês gostem disso e que possam ser inspirados ao menos por um minuto ou 3:45…
Obrigado por seu tempo e apoio. www.africanchildrenschoir.com

Tudo de bom, TK

Fonte

Uma Princesa de Marte - 22° Capítulo

Capítulo 22 - MEU ENCONTRO COM DEJAH


O mordomo a quem me reportei havia recebido instruções para me posicionar perto do jeddak porque, em tempos de guerra, sempre há o risco de assassinato. A regra de que na guerra tudo vale parece resumir todo o valor ético dos conflitos marcianos. Assim, ele me acompanhou ao apartamento ocupado por Than Kosis naquele momento. O regente estava tendo uma conversa com seu filho, Sab Than, e vários cortesãos de sua
casa, e não notou minha presença. As paredes do apartamento eram completamente cobertas por esplêndidas tapeçarias que escondiam quaisquer janelas ou portas que pudessem estar por trás delas. O cômodo era iluminado por raios de sol aprisionados entre o telhado propriamente dito e o que aparentava ser um teto falso de vidro opaco, alguns centímetros abaixo. Meu guia afastou uma das tapeçarias para o lado, revelando uma passagem que circundava o cômodo entre os itens pendurados e as paredes da câmara. Eu deveria ficar dentro dessa passagem, disse ele, enquanto Than Kosis estivesse no apartamento. Quando ele saísse, eu deveria segui-lo. Minha única tarefa era guardar o regente e me manter escondido o máximo possível. Eu seria rendido após um período de quatro horas. Após isso, o mordomo se foi. As tapeçarias eram de uma trama estranha que lhes davam a aparência de uma pesada solidez de um lado, mas de onde eu me escondia, podia observar tudo o que acontecia no quarto como se não houvesse nenhuma barreira se interpondo.
Mal eu havia tomado meu posto e a tapeçaria do lado oposto da câmara se abriu, dando passagem a quatro soldados da guarda que cercavam uma figura feminina. Ao se aproximarem de Than Kosis, os soldados se separaram para os lados e ali, parada diante do jeddak - e a menos de três metros de mim -, estava a face sorridente e radiante de Dejah Thoris. Sab Than, príncipe de Zodanga, se adiantou para encontrá-la e, de mãos dadas, vieram para perto do jeddak.
Than Kosis olhou para cima, surpreso e, levantando-se, a saudou. A que estranha anomalia devo esta visita da princesa de Helium que, há dois dias, em uma rara consideração à minha vaidade, me assegurou que preferiria Tal Hajus, o thark verde, a meu filho?
Dejah Thoris apenas sorriu e, com suas covinhas ardilosas ladeando os cantos de sua boca, lhe dirigiu sua resposta: Em Barsoom, desde o início dos tempos, tem sido uma prerrogativa feminina mudar de idéia e fingir sobre os assuntos do coração. Por isso deve me perdoar, Than Kosis, como seu filho o fez. Dois dias atrás eu não tinha certeza de seu amor por mim, mas agora tenho e venho implorar que esqueça minhas duras palavras. Aceite a promessa da princesa de Helium de que, quando for chegada a hora, ela se casará com Sab Than, príncipe de Zodanga.
Fico feliz que tenha decidido assim - replicou Than Kosis.
Está longe de meus desejos guerrear contra o povo de Helium. Sua promessa deve ser registrada e uma proclamação ao meu povo deve ser anunciada imediatamente.
Seria melhor, Than Kosis - interrompeu Dejah Thoris -, que a proclamação esperasse até o fim dessa guerra. Soaria muito estranho para o meu povo e o seu se a princesa de Helium se entregasse ao inimigo de seu país em meio às hostilidades.
E não se pode terminar a guerra agora? - disse Sab Than.
É preciso somente a palavra de Than Kosis para que seja feita a paz. Diga, meu pai, diga a palavra que me trará alegria e um fim para esse conflito que descontenta o povo.
-Veremos como o povo de Helium lidará com a paz - replicou Than Kosis. - Garanto que oferecerei isso a eles.
Dejah Thoris, após algumas poucas palavras, voltou-se e deixou o apartamento, ainda seguida por seus guardas. Então, como um castelo de areia, meu breve sonho de felicidade desmoronou, arrebatado pela onda da realidade. A mulher pela qual eu havia oferecido minha vida, e de cujos lábios ouvira recentemente uma declaração de amor, facilmente se esquecera de minha existência e, sorridente, havia se entregado ao filho do inimigo mais odiado por seu povo. Embora eu mesmo tivesse ouvido tudo isso, era impossível acreditar. Precisava encontrar seus aposentos e, a sós, forçá- la a repetir a verdade cruel para que eu me convencesse. Assim, desertei meu posto e corri pela passagem por trás das tapeçarias em direção à porta pela qual ela havia deixado a câmara. Deslizando silenciosamente por entre essa abertura, descobri um labirinto de corredores tortuosos se bifurcando e se espalhando em todas as direções.
Correndo rapidamente por um deles, e depois por outro, logo me vi desesperadamente perdido. Ao ouvir vozes perto de mim, parei ofegante contra uma parede lateral. Aparentemente, elas estavam vindo do lado oposto da divisória contra a qual eu me apoiava e, imediatamente, reconheci a voz de Dejah Thoris. Eu não podia entender as palavras, mas sabia que não estava enganado quanto à sua voz. Alguns passos adiante, encontrei outra passagem no final da qual havia uma porta. Andando decididamente até ela, adentrei o recinto e me vi em uma pequena antecâmara na qual estavam os quatro guardas que a acompanhavam. Um deles se levantou instantaneamente e me interpelou, perguntando o propósito de minha presença.
Venho em nome de Than Kosis - respondi e desejo falar em particular com Dejah Thoris, princesa de Helium.
Qual é a sua ordem? - perguntou o indivíduo.
Eu não sabia do que ele estava falando, mas respondi que era membro da guarda e, sem esperar sua resposta, andei a passos largos na direção da porta oposta da antecâmara, por trás da qual podia ouvir Dejah Thoris conversando. Mas minha entrada não seria realizada facilmente.
O guarda se colocou em meu caminho dizendo: Ninguém vem em nome de Than Kosis sem trazer uma ordem ou uma senha. Você deve informar uma ou outra antes que possa prosseguir.
A única ordem que preciso para entrar onde desejo, amigo, está ao meu lado - respondi apontando minha espada longa. Vai me deixar entrar em paz ou não?
Em resposta, ele sacou sua espada decididamente, chamando seus companheiros para juntarem-se a ele. Os
quatro se posicionaram, com suas armas desembainhadas, barrando minha passagem.
Você não está aqui por ordem de Than Kosis - gritou o primeiro que havia se dirigido a mim. - E não somente você não entrará nos aposentos da princesa de Helium como também será escoltado de volta a Than Kosis para explicar sua ousadia injustificada. Largue sua arma, você não pode vencer a nós quatro - ele adicionou com um sorriso sombrio.
Minha resposta foi um golpe que me deixou com apenas três antagonistas, e posso assegurar que eles estavam à altura de meu metal. Eles me encurralaram contra a parede rapidamente, fazendo-me lutar por minha vida. Lentamente, consegui chegar a um canto da sala onde pude forçá-los a me enfrentar individualmente e assim combatemos por cerca de vinte minutos. O clangor do aço contra o aço produziu uma verdadeira cacofonia na pequena sala. O barulho trouxe Dejah Thoris à porta de seu apartamento e ali ela ficou parada durante toda a luta, com Sola logo atrás espiando sobre seu ombro. Sua face não demonstrava emoção e eu sabia que ela não me reconhecia, tampouco Sola. Finalmente, um golpe de sorte derrubou o segundo guarda e então, com apenas dois oponentes, mudei minha tática e os coloquei sob a carga do estilo de luta que sempre me reservou tantas vitórias. O terceiro caiu em menos de dez segundos após o segundo, e o último estava morto sobre o chão sangrento alguns momentos depois. Eram homens valentes e lutadores nobres, e me angustiei por ter sido forçado a matá-los, mas eu despovoaria alegremente toda a Barsoom se não houvesse alternativa para estar ao lado de minha Dejah Thoris.
Embainhando minha lâmina ensangüentada, avancei na direção de minha princesa marciana, que continuava parada e muda olhando para mim sem sinal de reconhecimento:
Quem é você, zodangano? - ela murmurou. - Outro inimigo para me perturbar em minha miséria?
Sou amigo - respondi. - Um amigo que antes era estimado.
Nenhum amigo da princesa de Helium veste esse metal - ela respondeu -, mas essa voz! Já a ouvi antes. Não é... não pode ser... não, porque ele está morto.
Mas é, minha princesa, nenhum outro além de John
Carter, eu disse. - Não reconhece, mesmo por trás desta tinta e do metal estranho, o coração de seu líder?
Ao me aproximar dela, ela se inclinou em minha direção com os braços estendidos, mas quando fui para alcançá-la e tomá-la em meus braços, ela recuou com um calafrio e um pequeno gemido de tristeza: Tarde demais, tarde demais - ela lamuriou. - Oh, meu antigo líder que pensei estar morto, se tivesse retornado apenas uma hora antes..., mas agora é tarde demais, tarde demais.
Do que está falando, Dejah Thoris? - gritei. - Que não teria se comprometido com o príncipe zodangano se
soubesse que estou vivo?
Acha mesmo, John Carter, que eu teria entregado meu amor a você ontem e a outro hoje? Achei que meu coração estava enterrado com suas cinzas nos fossos de Warhoon e, por isso, hoje prometi o resto de meu corpo a outro para salvar meu povo da maldição de um exército zodangano vitorioso.
Mas eu não estou morto, minha princesa. Vim para reclamá-la e nem toda a Zodanga poderá me impedir.
É tarde demais, John Carter, minha promessa foi feita e, em Barsoom, não há volta. 
As cerimônias que se seguirão nada mais são do que formalidades banais, tal como o cortejo fúnebre não marca a morte do jeddak. 
Eu já estou casada, John Carter. Você não pode mais me chamar de sua princesa. Você não é mais meu líder.
Conheço pouco dos seus costumes aqui em Barsoom, Dejah Thoris, mas sei que amo você, e se você realmente acredita nas últimas palavras que disse para mim naquele dia em que as hordas de Warhoon estavam avançando sobre nós, nenhum outro homem jamais poderá tomá-la como noiva. Você as disse naquele dia, minha princesa, e
ainda acredita nelas! Diga que é verdade.
Eu quis dizê-las, John Carter - ela murmurou. - Mas não posso mais repeti-las agora porque me entreguei a outro. Oh, se você apenas soubesse, meu amigo - ela continuou, meio que falando sozinha -, minha promessa teria sido sua há muitos meses, e você poderia ter me desposado antes de todos os outros. Isso poderia significar a queda de Helium, mas eu entregaria meu império ao meu líder tharkiano. Então, ela disse em voz alta: Lembra-se da noite em que me ofendeu? Você me chamou de sua princesa sem haver pedido minha mão, e então se vangloriou de ter lutado por mim. Você não conhecia nossos costumes e, agora vejo, eu não devia ter me ofendido. Mas não havia ninguém para explicar o que eu não poderia dizer. Em Barsoom, há dois tipos de mulheres nas cidades dos homens vermelhos: aquelas pelas quais eles lutam para depois pedir sua mão, e outras por quem também lutam, mas nunca as pedem em casamento. Quando um homem conquista uma mulher, ele pode se dirigir a ela como sua princesa ou usar qualquer outra expressão que signifique posse. Você havia lutado por mim, mas nunca me pediu em casamento. Portanto, quando me chamou de sua princesa, entenda - ela vacilou -, fiquei magoada. Mas mesmo assim, John Carter, não repeli você como deveria ter feito, até que você agravou a situação ao zombar de mim, dizendo que havia me conquistado em combate.
Não preciso mais pedir seu perdão agora, Dejah Thoris - gritei. -Você deve saber que minha falha se deve à minha ignorância de seus costumes barsoomianos. O que falhei em fazer, apesar de minha crença implícita de que meu pedido será presunçoso e inoportuno, farei agora, Dejah Thoris. Peço que seja minha esposa e, por todo o sangue guerreiro da Virgínia que corre em minhas veias, você será.
Não, John Carter, é inútil - ela gritou desesperadamente. - Jamais serei sua enquanto Sab Than viver.
Você selou a sentença de morte de Sab Than, minha princesa. Ele morrerá.
Isso também não pode ser - apressou-se em explicar. - Não devo me casar com o homem que assassinar meu marido, mesmo em legítima defesa. É o costume. Somos regidos pelos costumes de Barsoom. É inútil, meu amigo. Você deve suportar a angústia comigo. Pelo menos isso teremos em comum. Isso e a memória dos breves dias entre os tharks. Você deve partir agora e nunca mais me procurar. Adeus, meu antigo líder.
Abatido e triste, retirei-me da sala, mas não estava totalmente desencorajado. E também não admitiria perder Dejah Thoris até que a cerimônia realmente se realizasse. Vagando pelos corredores, eu estava tão absolutamente perdido na confusão de passagens tortuosas quanto estava antes de descobrir os alojamentos de Dejah Thoris. Eu sabia que minha única chance repousava em fugir da cidade de Zodanga, porque a morte dos quatro guardas teria de ser explicada e eu nunca conseguiria voltar ao meu posto original sem um guia. As suspeitas certamente recairiam sobre mim tão logo eu fosse descoberto vagando perdido pelo palácio. Nessa hora me deparei com uma rampa em espiral levando aos andares inferiores e desci por ela por vários andares até chegar ao portal de um grande apartamento onde havia alguns guardas. As paredes desse aposento eram recobertas por tapeçarias transparentes por trás das quais me escondi sem ser percebido.
A conversa entre os guardas era trivial e não despertou meu interesse até um oficial entrar na sala e ordenar que quatro homens rendessem o corpo de guarda da princesa de Helium. Agora, eu sabia, meus problemas começariam seriamente e, em pouco tempo, estariam à minha caça. Pareceu-me que bastou um breve momento para que um dos guardas que acabara de sair da sala voltasse repentinamente e, sem fôlego, berrasse que haviam encontrado seus quatro camaradas exterminados na antecâmara. Em um segundo todo o palácio ficou em polvorosa. Guardas, oficiais, cortesãos, servos e escravos corriam em completa confusão pelos corredores e apartamentos levando mensagens e ordens, e procurando pistas do assassino. Essa era a minha oportunidade e, por mais ínfima que parecesse, me agarrei a ela. Quando um grupo de soldados passou apressado pelo meu esconderijo, junteime à sua retaguarda e os segui pelo labirinto do palácio até que passassem pelo grande hall, onde vi a abençoada luz do dia entrando através de uma série de janelas maiores. Ali, abandonei meus guias e, pulando pela janela mais próxima, procurei uma avenida para escapar. As janelas eram voltadas para uma grande sacada que ficava acima de uma das largas avenidas de Zodanga. O chão estava cerca de dez metros abaixo e, a mesma distância do edifício, havia ainda outra parede de seis metros de altura construída de vidro polido de trinta centímetros de espessura. Seria impossível para um marciano vermelho escapar por essa rota, mas para mim, com meu poder e agilidade terráqueas, aquilo parecia muito fácil. Meu único medo era ser visto antes que a escuridão caísse, porque não poderia dar o salto em plena luz do dia enquanto o pátio abaixo e a avenida mais adiante estivessem apinhados de zodanganos. Por esse motivo, procurei um lugar para me esconder e finalmente encontrei um, por acidente, dentro de um enorme ornamento dependurado no teto do hall e a quase três metros do chão. Saltei com facilidade para dentro do espaçoso vaso em formato redondo e mal havia me acomodado dentro dele, ouvi algumas pessoas entrando no recinto. O grupo parou sob meu esconderijo e eu podia ouvir claramente cada uma de suas palavras.
É obra dos heliumitas - disse um dos homens.
Sim, oh, jeddak, mas como eles tiveram acesso ao palácio? Eu poderia acreditar que, mesmo com o cuidado diligente de seus guardas, um inimigo pudesse chegar às câmaras internas, mas como uma força de seis ou oito combatentes poderia fazer o mesmo sem ser detectada está além de minha razão. Logo devemos saber, contudo, porque está chegando o psicólogo real.
Agora, outro homem se juntava ao grupo e, depois de fazer sua saudação formal ao regente, disse: -Oh, poderoso jeddak, leio uma história estranha nas mentes mortas de seus leais guardas. Eles foram ceifados não por um grupo de combatentes, mas por apenas um oponente.
Ele fez uma pausa para que todo o peso de seu pronunciamento impressionasse seus ouvintes, e essa afirmação difícil de ser aceita foi evidenciada pela exclamação impaciente de incredulidade que escapou dos lábios de Than Kosis:
Que tipo de história estranha me contará, Notan? - ele gritou.
É verdade, meu jeddak - retrucou o psicólogo. - Na verdade, as impressões foram fortemente marcadas no
cérebro de cada um dos quatro guardas. Seu antagonista era um homem muito alto, vestindo o metal de um de seus próprios guardas, e sua habilidade de luta beirava o incrível porque lutava francamente contra todos os quatro e os derrotou usando sua habilidade, poder sobrehumano e resistência. Embora ele vestisse o metal de Zodanga, meu jeddak, tal homem nunca fora visto antes neste ou em qualquer outro país em toda a Barsoom. A mente da princesa de Helium, a qual examinei e investiguei, estava vazia para mim. Ela tem perfeito controle e não pude ler absolutamente nada. Ela disse que testemunhou uma parte do encontro e que, quando vislumbrou a cena, havia apenas um homem que ela nunca havia visto antes.
Onde está aquele que me salvou? - disse uma outra voz, que reconheci como sendo a do primo de Than Kosis, que eu havia resgatado dos guerreiros verdes. - Pelo metal de meu primeiro ancestral - continuou -, sua descrição coincide exatamente com ele, especialmente sobre sua habilidade de luta.
Onde está esse homem? - gritou Than Kosis. - Tragam-no até mim imediatamente. O que sabe dele, primo?
Parece estranho, agora que penso nisso, que houvesse um lutador como ele em Zodanga e que não soubéssemos seu nome até hoje. E esse nome, John Carter; quem jamais ouviu um nome desses em toda a Barsoom?
Logo chegou a notícia de que eu não pude ser encontrado no palácio ou em meus antigos alojamentos nos galpões do esquadrão de patrulha aérea. Kantos Kan foi encontrado e interrogado, mas não sabia nada sobre meu paradeiro ou sobre meu passado. Ele disse que sabia pouco de mim, já que havíamos nos conhecido recentemente, quando fomos aprisionados pelos warhoons. Fique de olho neste aqui - comandou Than Kosis. - Ele também é um estranho e provavelmente ambos são servos de Helium. Onde estiver um, logo encontraremos o outro. Quadrupliquem a patrulha aérea e que todo homem que deixar a cidade por ar ou por terra seja colocado sob intenso escrutínio.
Outro mensageiro entrou na sala com a notícia de que eu ainda estava dentro do palácio: A aparência de todas as pessoas que entraram ou saíram das dependências do palácio hoje foi cuidadosamente examinada - informou o indivíduo e nenhuma se aproxima da descrição desse novo padwar dos guardas além da registrada quando ele foi apresentado pela primeira vez.
Então ele será capturado em breve - comentou Than Kosis com satisfação. - E, enquanto isso, iremos aos aposentos da princesa de Helium e a interrogaremos sobre o fato. Ela deve saber mais do que se importou a
confessar a você, Notan. Venham. Eles deixaram o hall e, quando a escuridão caiu, me esgueirei suavemente de meu esconderijo e me apressei para a sacada. Poucos estavam à vista e, escolhendo o momento no qual ninguém parecia estar atento, saltei rapidamente para o topo da parede de vidro e dali para a avenida que levava para longe das dependências do palácio.

Ele é muito lindo...


Fonte: Arquivo Blog

Monday, 27 May 2013

Foto do dia!!!


Uma Princesa de Marte - 21° Capítulo

Capítulo 21 - UM PATRULHEIRO AÉREO DE
ZODANGA


Em minha jornada rumo a Zodanga muitas visões estranhas e interessantes chamaram minha atenção, e nas diversas casas de fazenda onde fiz parada, aprendi diversas coisas novas e instrutivas relativas aos métodos e costumes de Barsoom. A água que irriga as fazendas de Marte é coletada em imensos reservatórios subterrâneos que recolhem o gelo derretido das calotas nos dois pólos e o bombeiam por longas tubulações aos vários centros povoados. Margeando essas tubulações, por toda a sua extensão, estão as regiões cultivadas, as quais são divididas em lotes de metragens similares, cada qual sob supervisão de um ou mais oficiais a serviço.
Em vez de inundar a superfície dos campos - perdendo quantidades imensas através da evaporação -, o precioso líquido é levado pelo subsolo por uma vasta rede de encanamentos menores diretamente às raízes da vegetação. As plantações sobre Marte são sempre uniformes por não haver secas, chuvas, ventanias, insetos nem aves daninhas. Nessa viagem provei o primeiro pedaço de carne desde que havia deixado a Terra, em forma de filés suculentos e cortes dos animais domésticos bem tratados da fazenda. Também provei as lascivas frutas e vegetais, mas nenhum componente dessa culinária era exatamente igual a qualquer coisa da Terra. Toda planta, flor, vegetal e animal vem sendo refinados por eras de cuidadoso cultivo e criação científicos que, se comparados, reduzem os da Terra a pálidas, nubladas e comuns tentativas.
Na segunda parada encontrei algumas pessoas altamente cultas e de classe nobre e, enquanto conversávamos, o assunto se voltou para Helium. Um dos homens mais velhos havia estado lá em diversas missões diplomáticas alguns anos atrás e falou com arrependimento das condições que pareciam manter a eterna guerra desses dois países.
Helium - ele disse - certamente ostenta as mulheres mais belas de Barsoom, e de todos os seus tesouros, a maravilhosa filha de Mors Kajak, Dejah Thoris, é sua flor mais perfeita. Ora - ele adicionou o povo realmente venera o chão em que ela pisa e, desde sua perda em uma expedição desafortunada, toda a Helium se reveste em lamentação. O fato de nosso regente ter atacado e desmantelado a frota enquanto esta retornava a Helium foi nada mais que outra gafe terrível que, temo, mais cedo ou mais tarde compelirá Zodanga a elevar um homem mais sábio a seu lugar. Mesmo agora, embora nossos exércitos estejam cercando Helium, o povo de Zodanga está manifestando seu descontentamento, porque a guerra não tem apoio, uma vez que não é baseada em direitos ou justiça. Nossas forças tomam vantagem da ausência da principal frota de Helium, que busca a princesa, e assim poderão facilmente reduzir a cidade a um lastimável fim. Dizem que ela cairá nas próximas passagens da lua mais próxima.
E o que acha que deve ter acontecido à princesa Dejah Thoris? - perguntei tão casualmente quanto possível.
Ela está morta - respondeu. - Isso foi revelado por um guerreiro verde recentemente capturado por nossas forças ao sul. Ela escapou das hordas de Thark com uma estranha criatura de outro mundo, apenas para cair nas mãos dos warhoons. Seus thoats foram encontrados vagando sobre o fundo do mar e evidências de um combate sangrento foram descobertas nos arredores.
Ao mesmo tempo em que essa informação não era animadora, também não era prova conclusiva da morte de Dejah Thoris. Assim, decidi fazer todo esforço possível para chegar a Helium o mais rápido possível e levar a Tardos Mors todas as informações que eu possuía sobre a possível situação de sua neta. Dez dias depois de deixar os três irmãos Ptor, cheguei a Zodanga. A partir do momento em que entrei em contato com os habitantes vermelhos de Marte, notei que Woola chamava uma atenção indesejada sobre mim, uma vez que o bruto pertencia a uma espécie que nunca fora domesticada pelos homens vermelhos. Se alguém passeasse pela Broadway com um leão númida ao seu lado, o efeito seria parecido ao que eu causaria se entrasse em Zodanga com Woola.
A idéia de me separar de meu fiel companheiro causava remorso tão grande e tristeza tão genuína que protelei o fato até momentos antes de chegarmos aos portões da cidade. Mas ali, finalmente, tornou-se imperativo que nos separássemos. Não fossem minha segurança e objetivos estarem em jogo, nenhum motivo seria suficiente para me fazer deixar a única criatura de Barsoom que nunca havia falhado em suas demonstrações de afeição e lealdade. Mas enquanto estava disposto a oferecer minha vida a serviço daquela que eu procurava, e pela qual estava prestes a desafiar os perigos ocultos desta ainda misteriosa cidade, eu não poderia permitir sequer que a vida de Woola ameaçasse o sucesso de minha tentativa, muito menos sua felicidade momentânea, porque duvidada que ele me esquecesse logo. E assim acenei meu afetuoso adeus à pobre fera, prometendo a ele, contudo, que se eu sobrevivesse à minha aventura, encontraria os meios de procurar por ele. Ele pareceu entender tudo, e quando apontei para a direção de Thark, ele voltouse angustiadamente e sequer pude suportar observar sua partida. Resolutamente voltei meu rosto na direção de Zodanga e, com o coração apertado, avancei para as muralhas carrancudas.
A carta que eu trazia me garantiu entrada imediata na vasta e fortificada cidade. Era muito cedo ainda e as ruas estavam praticamente desertas. As residências se elevavam altas sobre suas colunas de metal, lembrando grandes casas de pássaros, enquanto os próprios pilares tinham a aparência de troncos de árvores feitos de metal. As lojas, por regra, não eram elevadas do chão e não tinham suas portas trancadas ou obstruídas, porque o furto era uma atividade praticamente desconhecida em Barsoom.
Assassinato é um medo constante para todos os barsoomianos, e por essa razão seus lares são colocados longe do chão à noite ou em tempos de perigo. Os irmãos Ptor haviam me dado instruções específicas para chegar ao ponto da cidade onde encontraria acomodações próximas aos escritórios dos agentes do governo
aos quais eu tinha cartas endereçadas. Meu caminho me levou ao quarteirão central da praça, uma característica de todas as cidades marcianas.
A Praça de Zodanga cobre um quilômetro quadrado e meio e é delimitada pelos palácios do jeddak, dos jeds e de outros membros da realeza e nobreza de Zodanga, assim como os principais prédios públicos, cafés e lojas. Ao atravessar o grande quarteirão, admirado e surpreso pelas magníficas arquiteturas e a belíssima vegetação vermelha que acarpetava os largos gramados, descobri um marciano vermelho caminhando ligeiro em minha direção, vindo de uma das avenidas. Ele não prestou a menor atenção em mim, mas chegou perto o bastante para que eu o reconhecesse. Virei-me e coloquei minha mão em seu ombro chamando:
Kaor, Kantos Kan!
Ele se virou como um relâmpago e, antes que eu pudesse baixar minha mão, a ponta de sua espada já estava em meu peito:
Quem é você? - ele rosnou enquanto eu dava um passo para trás que me levaria a cinco metros de sua espada. Ele baixou a arma para o chão e exclamou, rindo:
Não preciso de resposta melhor, pois há somente um homem em toda a Barsoom que pode quicar como uma bola de borracha. Pela mãe da lua próxima, John Carter, como chegou aqui e, diga, você virou um Darseen para conseguir mudar de cor quando quiser? Por um minuto você me deu um susto, meu amigo -
ele continuou após eu fazer um breve resumo de minhas aventuras desde que nos separamos na arena de Warhoon. - Se meu nome e cidade forem revelados aos zodanganos, eu logo estarei nos bancos do mar perdido de Korus com meus respeitados e falecidos ancestrais. Estou aqui pelos interesses de Tardos Mors, jeddak de Helium, para descobrir o paradeiro de nossa princesa. Sab Than, príncipe de Zodanga, a mantém escondida na cidade e apaixonou-se perdidamente por ela. Seu pai, Than Kosis, jeddak de Zodanga, arranjou um casamento voluntário para seu filho pelo preço da paz entre nossos países, mas Tardos Mors não cederá às exigências e enviou a mensagem de que seu povo preferiria olhar o rosto morto de sua princesa a casá-la contra sua vontade, e que ele pessoalmente prefere ser envolvido pelas cinzas de uma Helium derrotada e incendiada do que unir o metal de sua casa com o de Than Kosis. Sua resposta foi a mais imperdoável afronta que poderia dar a Than Kosis e aos zodanganos, mas seu povo o ama por isso e seu poder em Helium é maior hoje do que nunca.
Estou aqui há três dias - continuou Kantos Kan -, mas ainda não consegui encontrar o lugar onde Dejah Thoris está aprisionada. Hoje me juntarei à armada como patrulheiro aéreo. Espero assim conseguir a confiança do príncipe Sab Than, que comanda essa divisão, e assim encontrá-la. Estou feliz que esteja aqui, John Carter, porque sei de sua lealdade à princesa e, se trabalharmos juntos, poderemos ser mais bem-sucedidos.
A praça agora começava a ser preenchida por pessoas indo e vindo em suas atividades diárias. As lojas estavam sendo abertas e os cafés se enchiam com os primeiros clientes da manhã. Kantos Kan me levou a um desses maravilhosos restaurantes onde fomos servidos inteiramente por aparatos mecânicos. Nenhuma mão havia tocado a comida desde que havia entrado no prédio em seu estado natural até que emergisse, quente e deliciosa, sobre as mesas diante dos consumidores em resposta aos pequenos botões que apertavam indicando seus pedidos. Após nossa refeição, Kantos Kan levou-me ao quartelgeneral do esquadrão de patrulha aérea e, introduzindome ao seu superior, pediu que eu fosse alistado como membro da unidade. De acordo com os costumes, um exame se fez necessário, mas Kantos Kan me avisou para nada temer sobre esse obstáculo porque cuidaria do assunto.
Ele conseguiu isso entregando meu pedido de exame para o oficial de revista e se apresentando como John Carter. - Esse ardil será descoberto depois - explicou animadamente -quando forem checar minha altura, medidas e outras informações de cunho pessoal, mas levará meses até que isso aconteça, e até lá nossa missão estará completada, ou teremos falhado muito tempo antes disso.
Os próximos dias se passaram com Kantos Kan me ensinando os fundamentos de vôo e da reparação dos delicados pequenos aparelhos que os marcianos usam para esse propósito. O tamanho dessa nave de um lugar é de cerca de cinco metros de comprimento, sessenta centímetros de largura e dez centímetros de espessura, estreitando-se nas duas pontas. O piloto senta-se sobre esse avião em um assento construído logo acima de um pequeno e silencioso motor de rádio que o propulsiona. O meio da força de ascensão fica contido dentro de finas paredes de metal presas à fuselagem e consiste de oito raios barsoomianos, ou raios de propulsão, assim designados em face de suas propriedades. Esse raio, como o nono raio, é desconhecido na Terra, mas os marcianos descobriram que se trata de uma propriedade inerente a toda luz, não importando de que fonte emane. Eles aprenderam que é o oitavo raio do sol que propele sua luz aos vários planetas, e que é o oitavo raio de cada um dos planetas que "reflete" ou propulsiona a luz obtida de volta novamente ao espaço. O oitavo raio solar seria absorvido pela superfície de Barsoom, mas o oitavo raio barsoomiano, que tende a propagar a luz de Marte no espaço, está constantemente vertendo para fora do planeta, constituindo uma força repulsora de gravidade que, quando confinada, é capaz de levantar enormes volumes de peso do solo. Foi esse raio que permitiu o aperfeiçoamento da aviação, fazendo com que navios de guerra, muito mais pesados que qualquer coisa conhecida sobre a Terra, navegassem com graça e leveza pelo ar rarefeito de Barsoom como balões de gás na pesada atmosfera da Terra.
Durante os primeiros anos da descoberta desse raio, muitos acidentes estranhos aconteceram, ocorridos antes que os marcianos aprendessem a medir e controlar esse maravilhoso poder que descobriram. Por exemplo, por volta de novecentos anos atrás, a primeira belonave a ser construída com reservatórios para o oitavo raio foi abastecida com uma quantidade grande demais e navegou verticalmente sobre Helium levando quinhentos oficiais e homens para nunca mais retornar. Seu poder de repulsão do planeta era tão grande que a belonave foi levada para o espaço exterior, onde ainda pode ser vista hoje, com a ajuda de poderosos telescópios, velejando pelos céus a mais de quinze mil quilômetros de distância de Marte. Um pequenino satélite que orbitará Barsoom até o final dos tempos.
Fiz meu primeiro vôo no quarto dia após minha chegada a Zodanga. Como resultado, recebi uma promoção que incluía acomodações no palácio de Than Kosis. Quando me elevei sobre a cidade, voei em círculos várias vezes como havia visto Kantos Kan fazer. Depois, arremessei meu aparelho à velocidade máxima, acelerando cada vez mais em direção ao sul, seguindo uma das hidrovias que chegam a Zodanga por esse lado da cidade. Eu já havia percorrido, talvez, trezentos quilômetros em pouco mais de uma hora quando enxerguei ao longe um bando de três guerreiros verdes marcianos correndo ensandecidamente na direção de uma pequena figura a pé que parecia estar tentando alcançar os limites de um dos campos murados. Inclinando minha máquina rapidamente em sua direção e fazendo um círculo pela retaguarda dos guerreiros, logo vi que o objeto de sua perseguição era um marciano vermelho vestindo o metal do esquadrão de patrulha ao qual eu estava servindo. A uma pequena distância além, jazia seu pequeno aparelho de vôo, cercado pelas ferramentas que evidentemente estava usando para realizar o reparo de algum dano quando foi surpreendido pelos guerreiros verdes.
Nesse ponto, já estavam praticamente sobre ele; suas montarias levantavam poeira em extrema velocidade de ataque, buscando a figura relativamente pequena enquanto os guerreiros se inclinavam, abaixando-se para o lado direito, com suas grandes lanças revestidas de metal. Cada um parecia estar competindo para ser o primeiro a empalar o pobre zodangano e o próximo momento poderia ter sido seu último, não fosse minha chegada providencial. Guiando minha ligeira aeronave a toda velocidade por trás dos guerreiros, logo os ultrapassei e, sem desacelerar, lancei a proa de meu pequeno aeroplano entre os ombros do guerreiro mais próximo. O impacto, suficiente para rasgar vários centímetros de metal sólido, arremessou o corpo decapitado do indivíduo sobre a cabeça de seu thoat, que caiu estendido sobre o musgo.
As montarias dos outros dois guerreiros se viraram, berrando de terror, e dispararam em direções opostas. Reduzindo minha velocidade, circulei e pousei aos pés do surpreso zodangano. Ele foi caloroso em seus agradecimentos por minha ajuda oportuna e prometeu que o trabalho realizado me traria a recompensa merecida, porque a vida que eu havia salvado tratava-se de nenhuma outra além do primo do jeddak de Zodanga. Não perdemos mais tempo falando, pois sabíamos que os guerreiros certamente retornariam assim que recuperassem o controle de suas montarias. Precipitando-nos até sua máquina avariada, concentramos todos os nossos esforços para realizar os reparos necessários. Já havíamos quase terminado quando vimos os dois monstros verdes retornando a toda velocidade vindos de direções opostas às nossas. Quando eles estavam a menos de cem metros de distância, novamente seus thoats começaram a refugar e se recusavam absolutamente a chegar mais perto da aeronave que os havia assustado.
Os guerreiros finalmente desmontaram e, amarrando seus animais, avançaram em nossas direções a pé, brandindo suas espadas longas. Avancei para encontrar o maior deles, dizendo ao zodangano que desse o seu melhor contra o outro. Eliminando meu homem com quase nenhum esforço - porque agora, após muita prática, isso havia se tornado habitual para mim -, corri de volta ao meu novo conhecido a quem encontrei verdadeiramente em uma situação difícil. Ele estava ferido e caído com o enorme pé de seu antagonista sobre sua garganta e com a espada erguida para desferir o golpe fatal. Com um salto, cobri os quinze metros que nos separavam e com a ponta estendida de minha espada atravessei completamente o corpo do guerreiro verde. Sua espada caiu ao chão, inofensiva, e ele desabou desajeitadamente sobre a forma prostrada do zodangano. Um exame superficial em meu companheiro não revelou ferimentos graves e, depois de um breve repouso, ele afirmou estar se sentindo bem o bastante para tentar a viagem de volta. Ele teria de pilotar sua própria nave, pois esses frágeis veículos não foram projetados para levar mais de uma pessoa.
Rapidamente, após terminarmos os reparos, subimos juntos aos céus calmos e sem nuvens de Marte e, a grande velocidade e sem novos incidentes, retornamos a Zodanga. Ao nos aproximarmos da cidade, descobrimos uma grande confluência de pessoas e tropas reunidas sobre o campo diante da cidade. O céu estava negro de veículos navais, naves particulares e públicas de lazer, ostentando longas bandeiras de seda com cores alegres e flâmulas de formatos estranhos e pitorescos. Meu companheiro sinalizou para que eu reduzisse a marcha. Aproximando sua máquina da minha, sugeriu que nos aproximássemos para observar a cerimônia que, segundo ele, tinha o propósito de conferir honras aos oficiais e homens por bravura e outros serviços de relevância. Ele então desenrolou uma bandeira de navegação que denotava que sua nave levara um membro da família real de Zodanga, e juntos abrimos caminho pela confusão de veículos planando próximos ao solo até que paramos diretamente acima do jeddak de Zodanga e seu estadomaior.
Todos estavam montados nos pequenos thoats machos domesticados pelos marcianos vermelhos, e seus enfeites e ornamentos continham uma quantidade de penas coloridas tão maravilhosas que minha reação não podia ser outra além de encantamento com a impressionante semelhança que a multidão apresentava com uma tribo de índios vermelhos da minha Terra. Um dos componentes do estado-maior chamou a atenção de Than Kosis para a presença de meu companheiro sobre eles e o regente sinalizou para que pousasse. Enquanto esperavam que tropas se colocassem em posição à frente do jeddak, os dois se falavam animadamente, com o jeddak e seus subordinados olhando ocasionalmente em minha direção. Eu não podia ouvir sua conversa, que logo terminou, e todos desmontaram enquanto o último batalhão das tropas se punha em posição perante seu imperador. Um membro do estado-maior se adiantou na direção das divisões e, chamando o nome de um soldado, ordenou que avançasse. O oficial então recitou a natureza heróica do ato que havia ganhado a aprovação do jeddak e este se adiantou e colocou um ornamento de metal sobre o braço esquerdo daquele homem de sorte.
Dez homens foram condecorados dessa forma quando um assistente gritou:
-John Carter, patrulheiro aéreo!
Nunca fiquei tão surpreso em toda a minha vida, mas o hábito da disciplina militar é forte dentro de mim. Soltei minha pequena máquina suavemente ao chão para avançar a pé como havia visto os outros fazerem. Quando parei diante do oficial, ele se dirigiu a mim com uma voz que podia ser ouvida por todo o agrupamento das tropas e espectadores.
- Em reconhecimento, John Carter - disse ele -, por sua notável coragem e habilidade em defender o primo do jeddak Than Kosis e, sem ajuda, subjugar três guerreiros verdes. É um prazer para nosso jeddak conferir a você a marca de nossa gratidão.
Than Kosis então se dirigiu até mim e, colocando um ornamento sobre meu corpo, disse: - Meu primo narrou os detalhes de seu maravilhoso feito, que me parece bem próximo ao que chamaria de milagroso e, se pôde defender tão bem um primo do jeddak, quão bem poderia defender a pessoa do próprio jeddak? De agora em diante você é nomeado um padwar dentre a guarda e ficará alojado em meu palácio.
Eu o agradeci e, seguindo sua indicação, me juntei ao seu estado-maior. Após a cerimônia, devolvi minha máquina à sua garagem na laje dos galpões do esquadrão de patrulha aérea e, com um servente da corte para me guiar, fui ter com o oficial encarregado do palácio.

Entrevista (divulgação Battleship)


Sunday, 26 May 2013

Bastidores de Repórteres de Guerra (The Bang Bang Club)






Fonte: Arquivo Blog

Uma princesa de Marte - 20° Capítulo

Capítulo 20 - NA FÁBRICA DE ATMOSFERA



Por dois dias esperei ali por Kantos Kan, mas como ele não apareceu, comecei a caminhar para o noroeste, em direção ao ponto onde ele havia dito que se localizava a hidrovia mais próxima. Minha única alimentação se baseava no leite vegetal das plantas, que forneciam tão generosamente esse fluido valioso.
Por duas longas semanas errei, cambaleando pelas noites, guiado somente pelas estrelas e escondendo-me durante os dias atrás de alguma saliência de rocha ou entre as colinas ocasionais que cruzava. Várias vezes fui atacado por feras selvagens. Monstruosidades estranhas e grotescas pulavam sobre mim no escuro, forçando-me a carregar minha espada longa constantemente em punho, sempre preparado a enfrentá-las. Normalmente, meu estranho e recentemente adquirido poder telepático me avisava com tempo suficiente, mas uma vez me vi com presas odiosas em minha jugular e uma cara peluda contra a minha antes que eu sequer soubesse que estava em perigo. Que tipo de coisa estava sobre mim, não sei dizer, mas que era grande, pesada e com muitas pernas, isso eu pude sentir. Minhas mãos estavam em sua garganta antes que as presas tivessem chance de se enterrar em meu pescoço. Vagarosamente, forcei sua cara peluda para longe de mim e cerrei meus dedos como um alicate sobre sua traqueia. Sem emitir som enquanto estávamos no chão, a fera empregou toda a sua força para me alcançar com suas terríveis presas enquanto eu me desdobrava para continuar meu aperto, sufocando-a à medida que tentava mantê-la longe de minha garganta. Vagarosamente, meus braços cederam devido ao embate desigual e, polegada após polegada, os olhos faiscantes e os caninos reluzentes de meu antagonista chegavam cada vez mais perto de mim. Em determinado ponto, quando sua cara peluda tocou novamente a minha, percebi que tudo estava acabado. Nesse momento, uma massa viva de destruição saltou da escuridão em volta e caiu sobre a criatura que me mantinha preso ao chão. Os dois rolaram rosnando sobre o musgo, rasgando e dilacerando um ao outro de uma maneira amedrontadora, mas em pouco tempo tudo estava acabado, e meu salvador se postou com a cabeça abaixada sobre a garganta da coisa morta que desejava me matar. A lua mais próxima, surgindo repentinamente sobre o horizonte e iluminando o cenário barsoomiano, mostrou que meu guardião era Woola, mas de onde havia vindo ou como havia me encontrado, eu não sabia dizer. Desnecessário citar que eu estava alegre por seu companheirismo, mas meu prazer em vê-lo se misturava à ansiedade por tê-lo deixado com Dejah Thoris. Eu tinha certeza de que somente sua morte explicaria o distanciamento de Woola dela, tão leal que era em obedecer meus comandos.
Agora, sob a luz das luas fulgurantes, vi que ele era apenas uma sombra de sua antiga forma. E quando ele se desviou de meus afagos e começou a devorar avidamente a carcaça aos meus pés, entendi que o pobre companheiro estava mais que faminto. Eu mesmo estava apenas um pouco menos apurado, mas não consegui me forçar a comer a carne crua e não possuía meios de acender um fogo. Quando Woola terminou sua refeição, retomei minha cansativa e aparentemente infinita caminhada em busca da suposta hidrovia.
Ao alvorecer do décimo quinto dia de minha jornada, fiquei radiante ao avistar as altas árvores que anunciavam o objeto de minha busca. Por volta do meio-dia me arrastei dolorosamente aos portais de uma grande construção que talvez cobrisse seis quilômetros quadrados e tinha uma altura de sessenta metros. Não apresentava nenhuma abertura em suas poderosas paredes, exceto uma pequena porta perto da qual me esparramei, exausto. Não havia sinal de vida alguma à vista. Não pude encontrar uma campainha ou outro meio de fazer que minha presença fosse percebida pelos habitantes daquele lugar, a não ser que uma pequena abertura na parede próxima à porta servisse a esse propósito. Era quase tão pequena quanto um lápis comum. Deduzi que aquilo devia ser algum tipo de bocal e levei minha boca até ele. Quando estava pronto para falar em seu interior, uma voz veio dali perguntando quem eu era, de onde e qual a natureza de minha jornada. Expliquei que havia escapado dos warhoons e que estava morrendo de fome e exaustão.
Você veste o metal de um guerreiro, está sendo seguido por um calot e ainda assim tem a aparência de um homem vermelho. Sua cor não é nem verde nem vermelha. Em nome do nono dia, que tipo de criatura é você?
Sou um amigo dos homens vermelhos de Barsoom e estou faminto. Em nome da humanidade, por favor, abra - respondi.
Na mesma hora a porta começou a se afastar diante de mim e foi se afundando para dentro da parede por cerca de quinze metros para então deslizar suavemente para a esquerda, expondo um corredor curto e estreito feito de concreto. Do outro lado dele havia uma outra porta, parecida em todos os aspectos com a primeira que eu havia acabado de passar. Não havia ninguém à vista, mas imediatamente após passarmos pela porta, ela deslizou mansamente de volta ao seu lugar atrás de nós e se afastou rapidamente até sua posição original, na parede frontal da construção. Conforme a porta deslizou para o lado, notei sua grande espessura, que chegava facilmente a cinco metros. E quando ela voltou ao seu lugar após se fechar atrás de nós, grandes cilindros de aço haviam se soltado do teto atrás dela e se encaixado em suas extremidades
inferiores, em largas aberturas no piso. 
Seus testemunhos são bastante extraordinários - disse a voz após terminar seu interrogatório. - Mas você evidentemente fala a verdade, assim como é evidente que não é de Barsoom. Posso ver isso observando a formação de seu cérebro, a estranha localização de seus órgãos internos e a forma e o tamanho de seu coração.
Consegue ver através de mim? - exclamei.
Sim, consigo ver tudo exceto seus pensamentos. Se você fosse um barsoomiano, eu poderia lê-los.
Então, a porta se abriu do outro lado da câmara e um homem estranho e ressecado como uma múmia veio em minha direção. Ele vestia somente um único artigo de vestuário ou enfeite, um pequeno colar de ouro do qual pendia sobre seu peito um grande ornamento, do tamanho de um prato de jantar incrustado com grandes diamantes em toda a volta, reservando o centro exato para uma pedra estranha, de dois centímetros e meio de diâmetro, que cintilava nove raios diferentes. Eram as sete cores de nosso prisma terreno e dois outros lindos raios que, para mim, eram novos e ainda sem nome. Não consigo descrevê-los muito além de como se descreve o vermelho a um cego. Somente sei que são belos ao extremo.
O velho sentou-se e falou comigo por horas. A parte mais esquisita de nosso encontro foi que eu era capaz de ler todos os seus pensamentos, enquanto ele não podia vislumbrar sequer uma fração dos meus, exceto se eu falasse.
Eu não podia informá-lo de minha habilidade de sentir suas operações mentais, e, portanto, aprendi muito com ele - o que seria de grande valia para mim posteriormente. Eram coisas que eu nunca saberia se ele suspeitasse de meu poder alienígena, porque os marcianos têm perfeito controle do funcionamento de suas mentes, sendo capazes de direcionar seus pensamentos com absoluta precisão. A construção na qual eu me encontrava continha o maquinário que produz a atmosfera artificial que sustenta Marte. 0 segredo de todo o processo é focado no uso do nono raio, uma das grandes cintilações que notei emanando da grande pedra no diadema de meu anfitrião.
Esse raio é separado dos outros raios do sol ao passar por instrumentos cuidadosamente ajustados e colocados no telhado da grande construção. Três quartos dela são reservatórios nos quais o nono raio é armazenado. Esse produto é tratado eletricamente, ou seja, certas porções das refinadas vibrações elétricas são incorporadas a ele, e em seguida o produto é bombeado para os cinco principais centros de ar do planeta onde, quando liberado, entra em contato com o éter espacial e se transforma em atmosfera. Há sempre uma reserva suficiente do nono raio estocada na grande construção para manter a atual atmosfera marciana por mil anos. O único temor, como meu velho amigo contou, era o de que algum acidente se abatesse sobre os aparelhos de bombeamento.
Ele me levou até uma câmara interna onde pude ver a bateria de vinte bombas de rádio, cada qual destinada à tarefa de prover Marte inteiro com o composto atmosférico. Por oitocentos anos, disse o velho, ele havia vigiado essas bombas, que eram usadas em alternância a cada período - equivalente a pouco mais de vinte e quatro horas e meia da contagem terrestre. Ele tinha um assistente com quem dividia os turnos. Cada um desses homens passava meio ano marciano, algo perto de trezentos e quarenta e quatro de nossos dias, sozinho nessa edificação isolada. Todo marciano vermelho é ensinado, já nos primeiros anos da infância, a fabricar atmosfera, mas somente dois por vez detêm o segredo de ingressar no grande edifício que, construído com suas muralhas de quarenta e cinco metros de espessura, é absolutamente inexpugnável. Seu teto é protegido de ataques aéreos por uma cobertura de vidro de um metro de meio de espessura. O único temor que guardam é pelo ataque de marcianos verdes ou de algum homem vermelho ensandecido, porque todos os barsoomianos sabem que a própria existência de vida em Marte depende do funcionamento ininterrupto desta fábrica.
Um fato curioso que descobri enquanto observava seus pensamentos é que as portas externas são manipuladas por meio telepático. As trancas são tão perfeitamente ajustadas que as portas são movidas pela ação de uma certa combinação de ondas mentais. Para experimentar meu novo brinquedo, pensei em surpreendê-lo revelando sua combinação, e assim perguntei como ele havia feito para abrir portas tão imensas de dentro das câmaras internas da fortaleza. Rápido como um raio, ele fez saltar de sua mente nove sons marcianos, mas estes desapareceram rapidamente quando me respondeu que se tratava de um segredo que não podia divulgar. Dali em diante, mudou seu tratamento para comigo como se temesse ter sido surpreendido divulgando seu grande segredo. Li desconfiança e medo em seu olhar e pensamento, apesar de suas palavras continuarem simpáticas.
Antes de me recolher para dormir, prometeu que me daria uma carta para um produtor de uma plantação próxima que me ajudaria a chegar a Zodanga que, segundo disse, era a cidade marciana mais próxima. Mas certifique-se de não deixá-los saber que está indo para Helium, porque estão em guerra com aquele país. Meu assistente e eu não somos de país algum, pertencemos a toda a Barsoom e esse talismã que usamos nos protege em todas as terras, mesmo entre os homens verdes. Mas, mesmo assim, não confiamos muito neles e os evitamos - ele adicionou. Portanto, boa noite, meu amigo - ele continuou. - Desejo- lhe uma noite longa e revigorante de sono. Sim, um longo sono.
E mesmo sorrindo prazerosamente, vi em seus pensamentos que ele desejava que nunca tivesse me deixado entrar. Em seguida, vi uma imagem dele parado sobre mim durante a noite, e um golpe rápido de uma longa adaga e as palavras obtusas se formaram: "Desculpe, mas isto é pelo bem de Barsoom". Quando fechou a porta de minha câmara atrás de si, seus pensamentos foram desligados de mim, assim como sua presença, o que me pareceu estranho por meu parco conhecimento sobre transferência mental. O que eu devia fazer? Como poderia escapar por aquelas poderosas paredes? Eu poderia matá-lo facilmente agora que estava ciente, mas, uma vez morto, eu não poderia escapar e, com as máquinas paradas na grande fábrica, eu morreria junto com todos os outros habitantes do planeta. Todos, até mesmo Dejah Thoris, se ainda não estivesse morta. Para os outros, eu não dava a mínima, mas a lembrança de Dejah Thoris levou para longe de minhas idéias o desejo de matar meu anfitrião desprevenido. Cautelosamente, abri a porta do meu apartamento e saí, seguido por Woola. Um plano ousado me ocorreu de repente: tentaria forçar as grandes travas com as nove ondas mentais que havia lido na mente de meu hospedeiro. Rastejando furtivamente corredor após corredor, e agora por corredores serpenteantes que guinavam para lá e para cá, finalmente alcancei o grande hall no qual havia quebrado meu longo jejum naquela manhã. Não tive sinal de meu anfitrião nem sabia para onde ele se retirava durante a noite. Eu estava a ponto de entrar bravamente na sala
quando um leve barulho atrás de mim me fez continuar nas sombras de uma reentrância no corredor. Arrastando Woola comigo, fiquei agachado na escuridão. Na mesma hora, o velho homem passou perto de mim enquanto entrava na mesma sala fracamente iluminada que eu estava prestes a atravessar. Vi que ele levava uma longa e fina adaga em sua mão e que estava afiando sua ponta em uma pedra. Em sua mente havia a decisão de inspecionar as bombas de rádio, o que lhe tomaria cerca de trinta minutos e, em seguida, retornaria à minha câmara e daria cabo de mim.
Quando ele passou pelo grande hall e desapareceu corredor abaixo na direção da sala de bombas, deixei sorrateiramente meu esconderijo e cruzei a grande porta, a mais interna das três que me separavam da liberdade. Concentrando minha mente na fechadura maciça, disparei as nove ondas de pensamento contra ela. Em expectativa sufocante, esperei até quando a grande porta se moveu suavemente em minha direção e deslizou em silêncio para um dos lados. Um após o outro, os grandes portais se abriram ao meu comando, e Woola e eu saímos para a escuridão, livres, mas não em melhores condições do que estávamos antes - exceto por agora estarmos de estômago cheio. Apressando-me para longe das sombras dos formidáveis blocos, cheguei até a primeira encruzilhada, pretendendo atingir a primeira estrada o mais rápido possível. Cheguei a ela perto do amanhecer. Adentrando a primeira área delimitada que encontrei, procurei por evidências de alguma habitação. Havia ali prédios de concreto de formato irregular lacrados por portas intransponíveis e pesadas, às quais nenhuma quantidade de batidas ou chamados logrou resposta.
Cansado e esgotado pela falta de sono, joguei-me sobre o chão ordenando que Woola ficasse de guarda. Algum tempo depois fui acordado por um amedrontador rosnado e abri meus olhos para ver três marcianos
vermelhos parados a uma curta distância, seus rifles mirados contra nós.
- Estou desarmado e não sou inimigo - apressei-me em explicar. - Fui prisioneiro dos homens verdes e estou a caminho de Zodanga. Tudo o que peço é comida e descanso para mim e meu calot, e as indicações corretas para atingir meu destino.
Eles baixaram seus rifles e avançaram com satisfação até mim, pousando suas mãos direitas sobre meu ombro esquerdo - sua maneira habitual de saudação - enquanto faziam muitas perguntas sobre mim e minhas jornadas errantes. Em seguida, me levaram até a casa de um deles, que ficava próxima. As construções às quais visitei boa parte da manhã eram ocupadas apenas pelo gado e produtos da fazenda. A aconchegante casa ficava em um bosque de árvores enormes e, como todos os lares dos marcianos vermelhos, durante a noite erguia-se do chão entre doze e quinze metros sobre um pilar de metal que corria para cima e para baixo dentro de uma luva enterrada no solo, operada por um pequeno motor de rádio na entrada do hall da construção. Em vez de se incomodarem com barras e parafusos para suas habitações, os marcianos vermelhos simplesmente as elevavam para longe dos perigos da noite. Eles também tinham meios próprios de descer ou se elevar do chão se quisessem sair dos domicílios. Esses irmãos, com suas esposas e filhos, ocupavam três casas similares na fazenda. Eles próprios não trabalhavam, por serem oficiais a serviço do governo. O esforço físico era realizado por condenados, prisioneiros de guerra, delinqüentes sociais e solteiros inveterados pobres demais para pagar a alta taxa celibatária que todos os governos de marcianos vermelhos impunham.
Os irmãos eram a personificação da cordialidade e hospitalidade. Passei vários dias ali, repousando e me recuperando de minhas longas e árduas experiências. Quando já haviam ouvido minha história - da qual omiti qualquer referência a Dejah Thoris e ao velho da fábrica de atmosfera - me aconselharam a pintar o corpo com uma cor que lembrasse mais os de sua raça para então tentar um emprego em Zodanga, fosse no exército ou na armada. - As chances de acreditarem em seu relato antes que você prove ser confiável e faça amigos entre a alta nobreza da corte são remotas. E isso você pode conseguir facilmente por meio do serviço militar, porque somos um povo bélico de Barsoom - explicou um deles - e guardamos nossos maiores favores para os grandes lutadores. Quando eu estava pronto para partir, me forneceram um pequeno macho thoat domesticado, que é usado como montaria por todos os marcianos vermelhos. O animal tem o tamanho aproximado de um cavalo, é muito gentil, mas é uma réplica exata em cores e forma de seus primos enormes e ferozes na natureza.
Os irmãos haviam me dado também um óleo avermelhado com o qual untei meu corpo todo. Um deles cortou meus cabelos, que haviam crescido muito no decorrer do tempo. Quadrado atrás e com uma franja na frente, para que assim eu transitasse por toda a Barsoom como um legítimo marciano vermelho. Meus metais e ornamentos também tiveram seu estilo renovado para o de um cavalheiro zodangano membro da casa de Ptor, que era o nome de família de meus benfeitores. Eles encheram minha bolsa lateral com dinheiro zodangano.
O sistema monetário em Marte é parecido com o nosso, exceto pelo fato de as moedas serem ovais. Cédulas de dinheiro são emitidas pelos próprios indivíduos conforme suas necessidades e compensadas uma vez ao ano. Se um homem emite mais do que pode saldar, o governo paga seus credores completamente e o endividado quita seu débito nas fazendas ou nas minas, que são todas de propriedade do governo. É um bom modelo, exceto para os endividados, por ser difícil encontrar trabalhadores voluntários suficientes para as grandes fazendas isoladas de Marte, que se estendem em estreitas faixas de pólo a pólo, passando por vastidões povoadas por animais selvagens e homens mais selvagens ainda.
Quando mencionei a impossibilidade de minha recíproca à sua gentileza, me asseguraram de que eu teria amplas oportunidades para isso - se eu vivesse bastante tempo em Barsoom. Acenaram seu adeus até que eu sumisse de vista sobre a estrada larga e branca.
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